quarta-feira, 17 de junho de 2009

RECORDAR O CARVALHAL NO ANTIGAMENTE


Mais uma vez fui à minha aldeia, aproveitando os feriados de Junho, que anexos a uns três dias de férias resultou numa maravilhosa semana de descanso, em companhia da família incluindo o membro mais recente, a Catarina, que com a sua presença e a sua sempre boa disposição nos faz sentir as pessoas mais felizes deste mundo e uns avós muito babados. Foi levada pela primeira vez a sentir o prazer de um passeio matinal a beira do Ceira no cerejal em Góis e sentir o prazer de poder meter os pés naquela água, pura e cristalina, o que fez com grande alegria e espontaneidade podendo assim desde bem pequenina começar a desfrutar das maravilhas que a nossa terra nos oferece. Sem dúvida que as praias do rio Ceira em Góis, são um oásis, que ao primeiro olhar, nos convidam a desfrutar um bem que já não é assim tão vasto, uma praia fluvial com águas puras e cristalinas, sem qualquer tipo de poluição que nos convida ao ócio e ao mergulho, com umas umas boas braçadas e a podermos espraiar num lugar na areia, ou num belo relvado que ladeia as margens do Ceira tendo ainda a vantagem de poder escolher um lugar ao sol ou à sombra. Seria deveras injusto omitir a qualidade das esplanadas que são colocadas á beira rio, durante a época balnear, onde podemos mitigar os nossos desejos e dar a paz e conforto que o nosso âmago anseia e bem merece.
Comecei por dizer que a ida foi à minha aldeia , mas tenho de confessar que reparti o tempo pela minha aldeia e pela vila de Góis, o que já é habitual, como há parte da família que se sente melhor na vila, sinto-me na obrigação de partilhar esse desejo que também não me desagrada.
E esse maior interesse pela vila só acontece porque esta geração mais nova, não desfrutou daqueles prazeres de antigamente passados no Carvalhal, as sementeiras agrícolas, trabalho árduo mas que era sempre desempenhado com o maior afinco, e a maioria era sempre executado em entreajuda, fosse agarrado ao cabo de uma enxada, de um ancinho ou a rabiça do arado tudo era feito na maior harmonia e camaradagem. Não esquecendo as sementeiras das ribeiras, onde havia sempre lugar a uma bem merecida, mas curta sesta após o almoço tomado quase sempre à sombra dos salgueiros ou outra árvore que oferecesse a melhor sombra, que nem sempre era aproveitada da mesma maneira por todos, enquanto uns dormiam outros divertiam-se a pregar partidas, a mais usual era a atar as pernas, ou a coser as calças nas pernas a algum que se deixasse adormecer, e quando fosse acordado para o reinicio aos trabalhos dava-se hora do riso pois era óbvio que não se conseguia levantar e caía... era chegada a hora de aparecer alguém arvorado em bom samaritano para cortar as linhas ou as cordas que cosiam ou atavam as calças. Havia sempre lugar ao trabalho e ao divertimento. Depois de um dia de trabalho duro, ainda havia disposição para ir para o largo da cruz da rua e fazer um baile até as tantas aahhh e como era saudável, onde novos e idosos se divertiam dançando ao som da concertina, da guitarra ou muitas vezes só ao som da harmónica (gaita de beiços) ou flauta, nome por que era mais conhecida nesta região. Chegada a época das colheitas do milho. era uma azáfama tinha de ser colhido e seco antes de começar a cair as primeiras chuvas. Os serões, nome porque eram conhecidas as escapeladas ou as debulhas, trabalho de desempenho comunitário onde as pessoas se entreajudavam com muita lealdade e pureza. Trabalho esse que era sempre desempenhado depois de um árduo dia de trabalho, uns seriam feitos antes e outros depois do jantar, onde não faltavam as cantigas, as mais variadas brincadeiras, se contavam muitas e criativas histórias, alegres anedotas, que nos faziam esquecer o cansaço e a dureza do quotidiano, onde se iniciavam ou terminavam alguns namoricos, entre a juventude que na altura havia muita na minha aldeia. Depois destes serões, às vezes já terminados muito para além da meia noite, ainda havia tempo para a rapaziada, mais atrevida ir roubar umas uvas para a ceia, e sabíamos sempre onde começar, as que já estavam mais maduras e o dono já dormia. um som inesquecível era o chiar dos carros de bois, que ao longe se podia ouvir formando uma melodia que mais parecia uma composição musical. Enfim... coisas do passado, que as gerações vindouras jamais poderão conhecer. Muitas vezes tento demonstrar aos meus filhos como era a nossa vida nesse tempo, e sinto uma felicidade incessante em estar a recordar como vivíamos nestas aldeias, como sofríamos mas éramos felizes ao mesmo tempo. A escola, que só podíamos usufruir do ensino primário, quarta classe, antes de entrar na escola às nove horas ainda fazíamos tarefas caseiras como, carregar um molho de mato ou lenha que os nossos pais faziam e nos punham as costas, com uma recomendação não te demores para não chegares atrasado à escola, o café ou a dejua como era conhecida, a primeira refeição do dia nem sempre era tomada, umas vezes por falta de tempo para não chegar atrasado as aulas outras pela inexistência de conteúdo. Os rebanhos que enchiam as ruas da aldeia, com o tilintar das campainhas ou dos chocalhos que saiam ao alvorecer ou chegavam ao cair do crepúsculo... era uma imagem única com os cabritos e os cordeiros a saltitar, alguns acabados de nascer ainda transportados ao colo do pastor. Neste momento são sonhos para quem viveu esta realidade porque tudo isso acabou, em grande parte devido à necessidade que as pessoas tiveram de emigrar, procurar noutros locais a esperança de uma vida melhor, em especial na grande Lisboa, onde ainda hoje existe uma grande comunidade Carvalhalense. As tardes de domingo que antecediam as festas da aldeia em honra de São João, o padroeiro da aldeia onde toda a comunidade aldeã se reunia numa casa do mordomo, para preparar manualmente os artefactos com que iriam ser decoradas as ruas da aldeia para o dia da festa, flores, candeeiros, fitas de papel, os arcos com ramos de castanheiro ou azereiro etc.. trabalho artesanal, uma arte que que era passada de geração em geração, mas infelizmente está a desvanecer. Sinal dos tempos modernos. Hoje é mais fácil adquirir esses ornamentos num armazém de quinquilharia chinesa, oh... que saudades, por onde andas Carvalhal do Sapo de antigamente. Seguramente também não era possível viver hoje desta maneira. Não passava de uma escravidão consentida e aceite pelas pessoas com alguma leveza, o meio pobre em que estavam inseridos, a rudeza da vida que tinham de enfrentar, o baptismo do obscurantismo com que éramos premiados durante a nossa infância, só alguns mais aventureiros e arrojados, se decidiam pela migração, procurando um salário mensal fixo com que pudesse alimentar a família condignamente. Coisa que nestas aldeias era um bem inexistente.
Então e os serões em casa do sapateiro, o sr. António Maria de Almeida onde os mais novos jogavam cartas, os mais idosos deixavam-se absorver em amena cavaqueira, com tricas e dicas do dia a dia da aldeia. Então e o cheirinho da broa quando estava a ser cozida no forno aquecido a lenha, o sabor daquela broa de cebola com carne de porco que jazia durante longo tempo na salgadeira, coberta de sal, única maneira de a conservar na altura, com um sabor sem precedentes, bem me lembro! A broa ainda vou conseguindo imitar, agora aquela carne com uma camada de toucinho com três dedos de altura já com cor de amarelado que se podia cortar às tirinhas e colocar em cima de uma fatia de broa mesmo já com oito dias de cozida e saborear assim mesmo, que petisco, uma iguaria sem igual, que só os nossos ascendentes sabiam preparar... isso é que já não há... oh que saudades!
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