quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

O MAGUSTO NA MINHA INFÂNCIA


O Magusto é sempre uma festa popular, cujas maneiras de o celebrar variam um pouco consoante as tradições regionais.


É tradição juntarem-se grupos de amigos e famílias à volta de uma fogueira normalmente ao ar livre

onde se vai assando castanhas para comer, bebe-se água -pé, vinho novo e jeropiga, cantam-se cantigas , as pessoas enfarruscam-se

com as cinzas, fazem-se brincadeiras, tudo na maior alegria. Quando aparece uma castanha "parida", é oferecida uma das partes a outra pessoa

ficando assim a ser compadres. Uma tradição na minha aldeia ainda sendo hoje usada pelos mais velhos.Embora o magusto seja normalmente realizado em dias festivos, é tradição em dia de todos os santos e São Martinho haver magusto colectivos e familiares em todo o nosso Portugal. Antigamente na minha aldeia era motivo de pretexto para os mais jovens nas tardes de domingo em época de castanhas fazerem o magusto para se poderem reunir e divertir à volta do lume feito com caruma dos pinheiros, com que assavam as castanhas. Uns ocupavam-se de ir apanhar a caruma , outros ofereciam castanhas e outros levavam a água-pé ou a jeropiga, e assim se passava uma bela tarde de domingo que muitas vezes terminava com um bailarico pela noite dentro.

Reza a lenda que, em dia tempestuoso ia São Martinho, soldado romano, montado no seu cavalo, quando viu um mendigo quase nu, tremendo de frio, que lhe estendia a mão suplicante, São Martinho não hesitou: Apeou-se do cavalo com a sua espada cortou ao meio a sua capa de militar e de imediato deu metade ao mendigo. E apesar de mal agasalhado sob chuva intensa, preparava-se para continuar o seu caminho cheio de felicidade. Mas subitamente, a tempestade desfez-se, o céu ficou límpido um sol brilhante inundou a terra de luz e calor. Para que não se apaga-se da memória dos homens o acto de bondade praticado pelo Santo, quis Deus que todos os anos nessa mesma época, e por alguns dias, o tempo frio para-se, e que o Céu e a terra sorrissem com a benção dum sol quente e miraculoso. É o chamado Verão de São Martinho. E que eu como já é costume deslocarme-ei a Góis minha terra natal para participar nas festas do dia de Todos os santos e celebrar a tradição de estar presente com a família no tradicional magusto colectivo, uma simpatia da Camara Municipal de Góis e produtores locais de castanha.


(Texto publicado na blogagem colectiva de Novembro "O meu magusto" no blog www.aldeiadaminhavida.blogspot.com/ . Visite este blog e vote no seu texto preferido)

domingo, 25 de Outubro de 2009

VINHO DO PORTO

ERA UMA VEZ UM VINHO
Durante centenas de anos, apreciadores estrangeiros beberam o vinho que era produzido no nordeste de Portugal, nas encostas das montanhas que ladeiam o Rio Douro.
No século I, antes de Cristo o historiador Grego Polybius. em land of wine relatou que uma matreta (recipiente para 27 litros) deste vinho era vendida por um dracma (moeda grega). No tempo dos Césares, ou romanos que ocuparam a região introduziram os lagares (tanques de pedra) e as ânforas (vaso grande de cerâmica) para a elaboração e envelhecimento do vinho.
A vitivinicultura tornou-se tão popular que o imperador Domiciano teve que ordenar a redução do numero de vinhas para metade, de modo a manter o equilíbrio com outros produtos agrícolas. O cultivo da vinha prosperou durante o domínio Visigodo e sobreviveu à ocupação dos mouros, do século VIII ao XII.

OS INGLESES DESCOBREM O VINHO DO PORTO

- A partir de 1143, quando Portugal se tornou um reino independente. o vinho do Douro aparecia frequentemente nos decretos reais e no século XII, era enviado rio Douro abaixo para a cidade do Porto e exportado para vários países.
No inicio do século XVII, chegavam anualmente ao Porto o equivalente a um milhão e duzentas mil caixas de vinho.
Em 1638, um diplomata alemão, Cristiano Kopke, fundou uma companhia de exportadores de vinho do Douro, que ainda hoje existe. Em 1675, ao vinho destinado à Holanda foi dado pela primeira vez o seu nome moderno: Vinho do Porto, apesar de legalmente só o vinho produzido em Portugal possa ser denominado Porto ou vinho do Porto, muitos países aceitam e respeitam a sua tradução (Port ou Port Wine).
à medida que o século XVII chegava ao fim, um acontecimento trouxe fama e prestígio universal ao vinho do Porto.
- A sua descoberta pelos britânicos que espalharam o seu nome por todo o mundo. No inicio do século XVII, existia uma colónia inglesa florescente na cidade de Viana do Castelo, 70 quilómetros ao norte do Porto. Ali comerciantes britânicos importavam produtos da Inglaterra e exportavam produtos agrícolas e um vinho verde tinto, leve e vivo, hoje em dia chamado "verde tinto". Não sendo popular entre a nobreza britânica, era consumido pelos marinheiros. Quando surgiram problemas políticos entre a França e Inglaterra, em 1660, o Bordeaux, que era o vinho eleito pelos nobres britânicos, tornou-se praticamente impossível de ser obtido. Na ocasião, os comerciantes de Viana do Castelo tentaram comercializar o vinho dos "marinheiros" como substituto, mas em vão. Ofereceram então,os vinhos ricos e aromáticos do Douro e foram tão bem sucedidos que mudaram o seu centro de operações para a cidade do Porto. A primeira firma inglesa de vinho do Porto foi a Warre, em 1670, seguida pela Croft, Quarles-Harris e, no final do século pela Taylor-Fladgate. Muitas outras companhias seriam fundadas nos séculos subsequentes.
- No século XVII, o vinho do Porto era o vinho preferido do partido Whig ( que sustentava os direitos do parlamento e que depois da reforma eleitoral de 1832 se transformou no partido Liberal). Em 1689 na presença de Catarina de Bragança, filha de D.João IV de Portugal e viúva do rei inglês Charles II, foi Mary II. No Século XVIII Samuel Johnson, liberato e animador da cultura londrina, afirmou que o Bordeaux é uma bebida para rapazes e o vinho do Porto Para Homens.
Em 1678, o primeiro ano de que à registos de exportação, Portugal enviou o equivalente a 24 mil caixas de vinho do Porto para a Inglaterra; (12 garrafas 0,75 cl por cx.)Em 1693, 780 mil, aumentando para um milhão e 500 mil, caixas em 1728. ( em 1708, o vinho do Porto tornou-se o primeiro do mundo a ser vendido em garrafa).
Os ingleses tinham adoptado
um novo vinho. Esta rápida ascensão de popularidade levou a abusos e falsificações. Por volta de 1740, para satisfazer a procura, os produtores e comerciantes adicionavam vinhos de regiões distantes ao produto verdadeiro. A consequente perda de qualidade levou a uma menor procura e o numero de caixas exportadas caiu para 750 mil, no fim da década. Isto levou as autoridades portuguesas em 1756 a fundar a companhia Geral da Agricultura dos vinhos do Alto Douro para controlar todos os aspectos da produção. Em 1761 foram estabelecidas as fronteiras exactas da região do Douro e regulamentos rígidos passaram a assegurar a autenticidade do vinho. Estas medidas pioneiras levaram a um controle de qualidade sem precedentes e serviram de modelo para a demarcação de regiões vinícolas noutros países. As exportações para a Inglaterra aumentaram, consequentemente, para três milhões e quinhentas mil caixas, em 1779.
Nos dias de hoje, o controle é melhor do que nunca. O instituto do Vinho do Porto e a casa do Douro, na região da Régua, fundados respectivamente em 1933 e 1932, super visionam todos os aspectos, da vinha ao consumo.
Ironicamente, os franceses que foram responsáveis de uma forma indirecta pela paixão dos ingleses pelo vinho do Porto bebem-no actualmente três vezes mais do que aqueles - mais do que em qualquer outro país.

UMA TRANSFORMAÇÃO HISTÓRICA


- Como era o Vinho do Porto nos séculos XVII e XVIII, comparado com o dos nossos dias ?
Há o conceito errado de que o Vinho do Porto, logo que os ingleses o descobriram, foi transformado de vinho de mesa seco e rico no vinho de sobremesa doce e forte que hoje conhecemos. O mito tem sido perpetuado pela história famosa, mais apócrifa, de dois jovens comerciantes de Liverpool que pararam no mosteiro de Lamego, em 1678, e a quem foi dado um vinho rico, doce e forte tão apreciado pelos dois, que compraram tudo o que puderam e o exportaram para Inglaterra. No entanto a prática comum da época era adicionar 15 litros de aguardente vínica a cada pipa (550) litros ou cerca de 3% do volume total do vinho, para o preservar durante o transporte. Hoje em dia cerca de cem litros por pipa ou 20% do total do volume do Vinho do Porto, são de aguardente adicionada antecipadamente para impedir a fermentação, manter a doçura e elevar o álcool até 20%. Se no mosteiro de Lamego se fazia o vinho assim era um caso isolado, uma vez que esta não era uma pratica comum até 1850. Seria mais provável que o mosteiro, produzisse um vinho frutado conhecido como "Vinho do Porto dos Padres"; mais rico e doce que os outros do seu tempo.
- A transformação aconteceu, de facto, mais vagarosamente. O verdadeiro catalisador ocorreu em 1820, quando houve uma colheita de uvas muito maduras e nem todos os açucares da fruta puderam ser convertidos em álcool. Assim, foi produzido um vinho extraordináriamente rico e doce, de forma natural. Os consumidores Ingleses aprovaram a novidade e os produtores começaram a parar a fermentação cada vez mais cedo, adicionando maiores quantidades de aguardente vínica. para torna-lo semelhante ao vinho excepcional produzido em 1820. Esta prática era muito controversa e um famoso produtor de Vinho do Porto, o Barão de Forrester, condenou em 1850 a adição de qualquer quantidade de aguardente vìnica. A sua opinião foi rejeitada. Mas até 1900 os produtores continuaram a fazer Vinho do Porto de três diferentes estilos:
- Seco, com um mínimo de álcool adicionado e fermentado seco;
- Médio, com mais aguardente e alguma retenção da doçura.
- Rico, uma aproximação à prática moderna de reter cerca de 10% do açúcar residual adicionando 20% na forma de aguardente vínica a 77º, George Saintsbury, o grande connaisseur do século XIX, menciona nos seus escritos como apreciava os três estilos de grandes anos, tal como 1851. Desde 1900 pode-se dizer com segurança que todo o Vinho do Porto é de estilo moderno, ou seja rico fortificado e doce.


O QUE TORNA O VINHO DO PORTO INCOMPARÁVEL


- Nenhum outro vinho esteve tão sujeito a imitação, mas nenhum vinho é tão resistente á criação de sucedâneos convincentes. Um produtor português de vinho do Porto que visitou os Estados Unidos da América em 1940, surpreendeu-se ao encontrar naquele País cartazes com a mensagem: "certifique-se de beber Porto Americano genuíno, cuidado com as imitações estrangeiras".
- As imitações do "estilo" Porto continuam a existir. São produzidas na Califórnia, Austrália, Africa do Sul e noutros lugares, Mas não passam de imitações. Diferem radicalmente do Vinho do Porto verdadeiro Devído a uma conjunção exclusiva de solo, clima e castas, o autêntico Porto só pode ser elaborado num único lugar do Mundo: o vale do rio Douro, em Portugal.
- O rio Douro encontra o Oceano Atlântico na cidade do Porto. Até esse ponto, já percorreu 640 quilómetros, desde a nascente no alto da sierra de Urbion no interior de Espanha cruzando Portugal de leste a oeste. A região demarcada do Vinho do Porto começa 96 quilometros a leste da cidade do Porto e estende-se por 107 quilometros dsede Barqueiros até Mazouc, na fronteira espanhola.
-O ponto mais largo da região demarcada do Douro tem apenas 25 quilómetros. As vinhas são plantadas em sómente 80 mil dos 700mil acres de àrea total, nas encostas em declive (35% a 70% de inclinação) que se erguem sobre o rio Douro e seus tributários. A serra do Marão, que se eleva abruptamente a 1500 metros no extremo oeste da região assinala a mudança dos planaltos saturados pelo ar húmido e frio do Atlântico, para um clima mediterrâneo montanhoso. O solo do Douro é dominado por duras pedras de xisto, formando um oásis rodeado de granitos por todos os lados. Cerca de 95% de todo o Vinho do Porto é cultivado neste xisto.Como existe apenas uma camada muito fina de terra argilosa, as vinhas são plantadas partindo a pedra até uma profundidade de um metro, onde as fissuras no xisto permitem que as raízes cheguem até 21 metros em busca de água.
O solo é muito ácido, devido a um nível alto de potássio, tem baixo nível de cálcio e magnésio e apresenta excesso de alumínio, o que é tóxico para as raízes. Além disso, as encostas só podem ser preparadas para plantação através do nivelamento de socalcos ou terraços, com ferramentas de ferro pontiagudas ou dinamite e, mais recentemente, bulldozers e tractores. Nunca ninguem disse que era fácil; o grande vinho nasce verdadeiramente dessa excepcional adversidade.
Os ínvernos são chuvosos e os verões longos e quentes, mas as noites frescas permitem que as plantas transportem o alimento das folhas às uvas. A capacidade do solo de reter a água a grandes profundidades e a sua propriedade de reflectir o calor na superfície, permite a formação de castas que produzem vinhos equilibrados e encorpados.
As vinhas podem ser cultivadas até 600 metros de altitude, mas as melhores castas provém das partes mais baixas das encostas. Existe um ditado que diz; o melhor Vinho do Porto deriva das uvas que conseguem ouvir o fluir do rio.
   - Três sub-regiões são determinadas por condições naturais; o Baixo Corgo, a parte mais ocidental, que se estende até onde o Rio Corgo intercepta o Douro. Ali, as encostas não são tão inclinadas, o solo superior é relativamente profundo, tornando a plantação mais fácil e alguma influência atlântica reflete-se na queda da chuva de cerca de 100 mm por ano, tornando a produção relativamente abundante. Esta área produziu a maior parte do Vinho do Porto até ao século XVIII, e ainda responde por cerca de 50% do total.
   - O cima Corgo, ou parte central, que se estende para o leste do rio Corgo até uma garganta chamada Cachão da Valeira. Ali, a montanha é muito inclinada, possui encostas irregulares, grandes formações de pedra difíceis de partir e apenas 71 mm de chuva por ano. Muitas das mais famosas propriedades do Douro, as chamadas quintas, reunem-se à volta da cidade de Pinhão coração desta região. Elabora-se ali cerca de 36% do Vinho do Porto, a maioria de grande qualidade.
   - A terceira sub-região ou Douro Superior, estende-se até á fronteira com Espanha, desde o Cachão da Valeira, um vale estreito e granítico onde os barcos não passavam até ser dinamitado entre 1780 e 1792. Ali, é mais fácil de trabalhar o solo xistoso, pois as encostas não são tão íngremes. A falta de chuva ( apenas 40 mmpor ano) dificulta o desenvolvimento das vinhas mais jovens, mas as mais velhas conseguem chegar às profundas reservas de água de modo a produzirem um vinho excepcionalmente rico e concentrado. Embora só 13%  do Vinho do Porto seja elaborado no Douro Superior, a àrea é considerada promissora. Não só porque a qualidade é soberba, mas também porque se presta á mecanização.


AS CASTAS
   - São cultivadas mais de trinta castas tintas diferentes na região do Douro, mas a investigação conduzida em anos recentes apontou cinco delas como de excepcional qualidade e interesse, justificando o aumento da sua plantação. Reconhecida como a melhor casta para o Vinho do Porto, esta variedade tem merecido especial atenção por parte dos escritores desde o século XVIII. É uma uva vigorosa, que amadurece cedo, com uma cor e aroma intensos notável pela longevidade. Bastante adaptável cresce bem nas três sub-regiões, mesmo em condições muito secas. A Touriga Nacional produz normalmente cerca de 13% de álcool, tem um excelente PH, ou equilíbrio ácido, 3,54 e um grande numero de polifénóis ou componentes aromáticos. Embora possa produzir um vinho perfeitamente equilibrado quando utilizada sózinha rende, cerca de 1/3 ou 1/2 em relação ás outras quatro variedades seleccionadas fazendo com que o seu uso exclusivo num Vinho do Porto seja económucamente impraticável. Além disso a Touriga Nacional melhora quando misturada com outras variedades. O seu aroma apresenta leves notas de frutos maduros, tais como amora, framboesa e cassis, com notas florais de violeta e esteva, bem como cheiros animais, como o musk e a caça.
O sabor é macio, elegante e equilibrado, e quando rico em taninos e acidez fresca, a impressão geral é de  maciez, elegância e complexidade.
   - Oficialmente aprovada desde 1800, esta é a única variedade de qualidade superior, que é extensivamente cultivada fora de Portugal. Investigações recentes demonstraram que é semelhante ou idêntica á tempranillo de Espanha. Combina a alta qualidade á boa quantidade, produzindo quase duas vezes e meia mais de mosto do que a Touriga Nacional. Cresce em cachos grandes e compactos e a casca espessa torna-se resistente ao sobre-amadurecimento.
   - A Tinta Roriz rende bem em todas as sub-regiões do Douro. Mas, como é sensível á falta de minerais rende mais num solo rico. A qualidade apresenta uma variação considerável em função do ano e da localização.O álcool médio eo PH são os mesmos da Touriga Nacional, mas a intensidade da cor é menor e torna-se mais clara com o envelhecimento. O aroma, embora forte, não é multidimensional como o da Touriga Nacional. Dominada pelos odores da madeira e herbácios, apresenta também em anos melhores, o aroma floral da esteva e a fruticidade da amora e da framboesa. É ligeiramente agressiva ao paladar, devido á preponderância dos taninos fortes e espessos. O final é longo e frutado. A impressão geral é forte, adstringente e poderosa, com uma certa aspereza. Esta casta foi reconhecida antes de 1800 e classificada em 1822 como muito boa, mas só a partir de 1941 passou a ser chamada Tinta Barroca em todo o Douro.
Bastante vigorosa, com cachos grandes e abertos, amadurece cedo e, em anos bons, é mais prolífica do que qualquer outra variedade superior do Douro. O álcool é de cerca de 14% e tem um PH baixo de aproximadamente 3,7. As uvas são grandes, com casca fina e, por esta razão, não toleram calor excessivo ou luz direta do sol, desenvolvem-se melhor em zonas altas e em encostas com exposição ao norte, especialmente nas sub-regiões do Baixo e Cima Corgo.
 - O carácter da Tinta Barroca é quase diametralmente oposto ao da Tinta Roriz: revela-se delicado, feminino, não agressivo. Quando cultivado num lugar fresco e húmido, tem um nível baixo de taninos e parece suave e doce. Em locais quentes produz mais taninos, o que ajuda a equilibrar sua baixa acidez.
   - A Tinta Barroca confere ao Porto elegância e aroma (tem muitos fenóis) e um final longo, persistente e frutado, com pequenas notas de cereja, amora e framboesa.
Uma casta já conhecirda em 1600, a Tinta Cão foi classificada em em 1791 como uma das melhores de Portugal, dando um vinho "colorido, forte e generoso". É a variedade menos produtiva depois da Touriga Nacional. Cresce em pequenos cachos com casca espessa, e é resistente ao calor e á luz directa do sol. Mas como  seu sumo é propenso á oxidação, produz melhor em locais frescos. Não tem tanto potencial para fruta profundamente madura como as outras variedades.
 - Quando cultivada em local fresco, o álcool é usualmente cerca de 12%. Apresenta aroma levemente floral, tornando-se muito refinado e delicado com o envelhecimento. Tem menos intensidade de cor e uma estrutura mais leve do que as outras variedades, precisando de cinco anos para mostrar as suas qualidades intrínsecas. No paladar, é floral, com um final frutado e de duração média. Quando cultivada num local quente, o aroma é mais condimentado, mas não tão agradavél quando jovem, nem tão bom quando envelhecida.
   - Apesar do nome Touriga Francesa, esta é uma casta estritamente do Douro, sem qualquer ligação a qualquer variedade francesa conhecida.Foi assim denominada ela primeira vez em 1940. Embora de alta qualidade e interesse, é de menor elegância,intrínseca do que as outras variedades superiores.A cor é boa e razoavelmente duradoura, mas não tanto como a Nacional, Roriz ou Barroca. A Touriga Francesa é de rápida maturação, apresenta cachos de tamanho médio e produtividade maior que a Touriga Nacional e a Tinto Cão, menor porém que a Tinta Roriz e a Barroca. Embora seja adaptável a diferentes solos, precisa de condições quentes de cultivo para obter a força de álcool necessário ao Vinho do Porto: atinge cerca de 12% de álcool, tem um excelente equilibrio do PH de 3,45 e é rica em fenóis. O aroma é o mais floral de todas as variedades, com predomínio da rosa. Em anos bons, a esteva está também em evidência. Menos agressiva do que a Roriz, mais robusta do que a Barroca, a fruta e o tanino estão bem equilibrados, mas não são de grande qualidade. Apesar de um final longo e intenso, tem um paladar bastante terroso. No entanto é uma excelente variedade de mistura devido aos seus componentes aromáticos floris e estruturais .

DA UVA Á GARRAFA

   - No Douro, a plantação de vinhas, o cultivo e a vindima das uvas tem sido uma tentativa constante de encontrar formas mais eficientes de extrair um néctar único de uma terra que dá o seu presente  generoso com muita dificuldade. Desde o tempo dos Romanos até ao final do século XIX , os tsrraços ou socalcos horizontais são penosamente talhados nas encostas com muros, construídos para suportar e evitar a erosão. Pode ser plantada uma fila ou duas em cada terraço ( sistema pré-phylloxera). No início do século XX, os terraços foram aumentados de modo a acomodarem até dez filas, ao mesmo tempo que os muros de sustentação eram gradualmente eliminados  (sistema tradicional). Estes dois sistemas dependeram totalmente do trabalho manual.
Por volta de 1970 sentiu-se a necessidade de mecanização para manter os custos de produção baixos. Introduziu-se então o sistema "patamar", uma longa série de pequenos terraços com apenas duas bordas horizontais, distanciados cerca de 1,2 metros e separados por declives variáveis em função da inclinação do terreno. Estes patamares podem ser trabalhados com pequenos tractores. Os resultados contudo não são totalmente satisfatórios.
Em 1976 foi introduzido um sistema muito  melhor em termos de macanização. Chamada "vinha ao alto" utiliza filas verticais que são interronpidas a cada 50 - 60 metros por uma rua ou caminho, para evitar a erosão ou proporcionar acesso fácil aos tractores  e outras máquinas. Um canhão gigante de pulverização permite a um homem fazer em dez horas o trabalho de quinze homens em quinze dias numa vinha tradicional. Trabalhando em declives acentuados superiores a 45% , os tractores têm de ser assistidos por um cabo, podendo utilizar tracção directa em declives menos acentuados.A alta densidade da plantação encoraja a competição entre os vinhos e proporciona Vinhos do Porto ricos e de grande qualidade. A vindima começa normalmente no Douro Superior e Cima Corgo nas últimas duas semanas de Setembro e cerca de duas semanas mais tarde no Baixo Corgo, prolongando-se por cerca de cinco semanas: As uvas são apanhadas manualmente, colocadas em cestos e transportadas para quintais ou outros centros vinícolas.
   _ cerca de 1%  do vinho é feito atravéz de um sistema introduzido pelos Romanos, isto é, pisando as uvas em lagares. Os homens esmagam as uvas com os pés descalços, até o liquido ter sído largamente extraído. Uma camada de películas a denominada manta sobe. Esta tem de ser empurrada para baixo durant vários dias com pás de madeira, chamadas macacos,ou pisadas, para se extraír a cor e o tanino suficientes para um bom Porto. O mosto fermenta em tanques e depois recebe a aguardente vínica que interronpe este processo e preserva  a sua doçura.
Desde o inicio dos anos sessenta, a maior parte da produção tem sido vinificada com recurso aos meios mecanicos. Depois de esmagadas, as uvas são colocadas, as uvas são colocadas em tanques de aço inixidável fechados ou com revestimento especial, onde a fermentação, onde a fermentação se processa. O mosto no fundo do tanque fica de uma camada de cascas.É produzido CO 2 como um produto resultante da fermentação e a sua pressão empurra o liquído do fundo do tanque para uma pequena câmara no topo. Daqui este é aspergido por cima   da camada a cada dez minutos, até a fermentação estar completa e pode ser escoado para tonéis de madeira, onde serã fortificado e envelhecido.A partir de meados da década de 70, vem sendo utilizado um método mecanico alternativo, denominado remontagem. Nele o mosto é bombeado sobre as cascas, em intervalos regulares conforme a casta, o seu grau de maturação, a quantidade de extrato desejado, etc. As hastes  e graínhas das uvas não são danificadas, o que evita quaisquer taninos amargos no vinho.
   - Durante cerca de 700 anos, o Vinho do Porto foi transportado pelo Douro abaixo em barcos de fundo chato ( os rabelos) para a cidade do Porto e para a sua cidade "gémea", Vila Nova de Gaia. A última viagem comercial de um barco Rabelo aconteceu em 1956. Actualmente, todo o Vinho do Porto é transportado em camiões cisterna. Os barcos tradicionais  ancorados em frente ás companhias de Vinho do Porto em Vila Nova de Gaia, utilizados apenas para uma regata espectacular todos os verões, no mês de Junho, em honra de S. João . Até 1986, todo o Vinho do Porto tinha de ser envelhecido e engarrafado nas caves em Vila Nova de Gaia. Mas, a nova legislação, publicada a 26 de Junho daquele ano, tornou legal não apenas o cultivo. mas também o envelhecimento e engarrafamento do Vinho do Porto no Douro. Consequentemente, muitos proprietários que antes vendiam suas produções para as grandes companhias estão agora a comercializar o seu Vinho do Porto com o nome da própria quinta.

TIPOS DE VINHO DO PORTO
VINTAGE
         - Não há vinho mais raro e procurado do que um Vinho do Porto Vintage. No máximo, constitui apenas 2% do total produzido. O Vintage provém de uma só colheita de reconhecida qualidade, com características organolépticas excepcionais. Apresenta uma cor maravilhosa, é encorpado e tem um aroma e paladar muito finos.
   - Para obter a necessária aprovação do instituto do Vinho do Porto e ser declarado um Vintage, o produtor terá de submeter uma amostra á apreciação dessa entidade, nunca antes do dia 1 de Janeiro e nunca depois do dia 30 Setembro do segundo ano depois da colheita. Se o vinho for aprovado, terá de ser engarrafado nunca antes do dia 1 de Julho do segundo ano e nunca depois do dia 1 de Julho do terceiro ano depois da colheita. A aprovação só será concedida se a câmara de provadores do instituto do Vinho do Porto considerar, após uma prova cega e uma série de análises físico-químicas, que o vinho apresenta uma qualidade excepcional. Vejamos, por exemplo, um Porto Vintage de 1991: precisou ser colhido em 1991 e enarrafado entre o dia 1 de Junho de 1993e o dia 30 de junho de 1994.
     O vinho permanecerá muitos anos a envelhecer na garrafa, onde será transformadode diamante em bruto com cor fruta e taninos intenso, numa jóia pulida, exibindo muitas facetas de profundezas, complexidade e equilíbrio. Frequentemente, os Vinhos do Porto Vintage levam entre 15 e 50 anos para alcançar todo o seu potencial.
Os primeiros Vinhos do Porto Vintage foram declarados por volta de  1734, isto é, certas colheitas permaneceram sem mistura em barricas, a fim de envelhecerem. Os vinhos mantidos assim eram bebidos logo após a abertura, até que surgiram a garrafa e a rolha de cortiça  mais para o final daqueli século. Vinho de 1765 foi vendido em pipa, num leilão da Christie's em 1773. Desde 1775 o Vinho do Porto Vintage é vendido em garrafas que podem ser mantidas deitadas. Assim começou a tradição de vinhos envelhecidos em garrafa, imitada nos outros países. George Sandeman exprime, num documento datado de 1807, a sua enorme gratificação ao beber Vintages 1775 e 1797, juntamente com o general inglês Welllington, em Torres Vedras. Era usual nos anos vinte do século XIX, deixar permanecer os vinhos do Porto Vintage em barrica, durante aproximadamente quatro anos e em seguida, envelhecê-los durante 15 ou mais anos na garrafa. Chegou-se por fim á conclusão que os vinhos teriam mais potencialidade de envelhecimento quando engarrafados mais cedo. Institui-se a morma de dois ou três anos, o que, nos nossos dias, é requisito legal. Para manter a sua riqueza e a sua força, os vinhos não aão afinados ou filtrados. Por isso, forma-se uma quantidade extraordinária de sedimentos ao longo do envelhecimento. Desde 1975, todos os Vinhos do Porto Vintage tem de ser engarrafados em Portugal, ostentando no rótulo principal a designação Vintage, o nome do produtor eo ano da colheita e engarrafamento. O vinho do Porto Vintage é um dos grandes do mundo, mas o seu lento envelhecimento, a sua forte sedimentação  (que requer decantação) e o seu custo elevado tornam-no adequado apenas para ocasiões especiais.

(LATE BOTTLED VINTAGE)  L.B.V.
   - Esta é a denominação dada a um tipo de Porto que está pronto a ser bebido mais cedo, tem um custo menos elevado e forma pouco depósito na garrafa. Permanece em garrafas durante quatro a seis anos, é afinado e filtrado para diminuír ou eliminar sedimentos e as garrafas são fechadas com uma rolha de cortiça. Ao ser comercializado, práticamente pronto para ser bebido.
Para obter a necessária aprovação do instituto do Vinho do Poto para declarar um Late Bottled Vintage (LBV), o produtor terá de submeter uma amostra à avaliação efectuada pelo instituto do Vinho do Porto nunca antes do dia 1 de Março e nunca depois do dia 30 de Setembrodo quarto ano depois da colheita. Se o vinho for aprovado, terá de ser engarrafado nunca antes do dia 1 de Julho do quarto ano e nunca depois do dia 31 de Dezembro do sexto ano após a colheita. Para 8uma colheita de 1989, isso significa o engarrafamento entre o dia 1 de Julho de 1993 e 31 de Dezembro de 1995. O produtor terá de ostentar no rótulo principal tanto o ano de colheita como o do engarrafamento. Os LBV tem de ter a sua origem numa só colheita de boa qualidade, devem apresentar óptimas características organopléticas, bom corpo, boa cor, aroma e paladar muito finos. Normalmente, são menos ricos e concentrados do que o Vinho do Porto Vintage. Existem, no entanto várias companhias que produzem um tipo de LBV dito "tradicional", segundo técnicas utilizadas no princípio dos anos 50, quando surgiu esta categoria, e empregando o mínimo de afinação e nenhuma filtagem. Esta categoria desenvolve-se lentamente na garrafa, tem uma sedimentação forte e reconhce-se pelo emprego de rolhas comuns ou de "entrada inteira".

COLHEITAS
   - Este é essencialmente um Tawny, de uma só colheita e é referido por vezes como um Vinho do Porto de colheita ou um "Reserva" com a designação do ano de colheita.
   - Para ser declarado colheita, têm de ser enviadas duas garrafas do vinho ao Instituto do Vinho do Porto entre os dias 1 de Julho e 31 de Dezembro do terceiro ano após a colheita. Terá de permanecer em barrica durante um período mínimo de sete nos e poderá ser comercializado somente quando forem aprovadas novas amostras depois do dia 1 de Janeiro do ano seguinte.
Não existe, contudo, qualquer imitação ao numero de anos durante os quais um Vinho do Porto do tipo Colheita poderá permanecer em brrica. Não raro, encontra-se Vinhos do Porto tipo colheita, comercializados recentemente, com 10, 20 e 40  anos de idade Em cada caso, deverão ser enviadas amostras ao Instituto do Vinho do Porto, antes das comercialização. O produtor deverá indicar no rótulo que o vinho envelheceu em barrica ou em madeira, bem como o ano de engarrafamento no rótulo ou contra-rótulo.
O Vinho do Porto tipo Colheita náo é considerado um Vintage de segunda qualidade, mas um Tawnyde primeira, datado.
É o vinho do Porto mais raro de todos e a sua produção representa apenas 0,5 % de toda a produção de Vinho do Porto.Encontramos nestes vinhos os complexos aromas e sabores de noz e de caramelo, combinados com uma textura sedosa.

GARRAFEIRA
     - Estes raros vinhos do Porto são de uma só colheita e envelhecidos em barricas. Posteriormente permanecem em garrafas durante muitos anos, antes de serem comercializados. Envelhecem em garrafas largas; depois são decantados para garrafas de tamanho standard, para posterior envelhecimento. Os Vnhos do Porto Garrafeira estão sujeitos a reprovação do Instituto do Vinho do Porto, antes da sua comercialização tomando em consideração a qualidade, a apresentação e a rotulagem.
Em termos de estilo, oscilam entre o intenso aroma frutado de um Vinho do Porto Colheita, revelando uma maciez e equilíbrio excelente.

TAWNY IDADE
      - Muitos Vinhos do Porto são misturas de vinhos de vários anos e portanto, não ostentam uma data no rótulo. Contudo, existe uma categoria em cujo rótulo se indica a idade média do vinho, e que podr ser 10,20,30, ou mais de 40 anos. O rótlulo deve indicar a idade média do vinho e referir o seu envelhecimento em barrica. Precisa ainda mencionar, quer no rótulo frontal ou contra-rótulo, o ano de engarrafamento.
Cada cuvée deste tipo de vinho è obtido por lotes de vinhos de diferentes idades. Os vinhos mais novos imprimen-lhe o vigor e a frescura, ao passo que os mais velhos conferem-lhe a complexidade e o corpo. O aroma e paladar craracterísticos estão nas mãos do provador, cujo empenho é usado para criar um vinho de personalidade única que perdure ano após ano.
Refinamento e força complexidade e frescura maturidade e vigor, são marcas registadas de um Tawny bem envelhecido. A criação de um bom Vintage está nas mãos de Deus. Mas a de um grande Tawny é obra do enólogo.

VINTAGE CHARÁCTER 
     - Os Vinhos do Porto Vintage Character estão no mercado há, 70 anos, sendo recomhecida a sua excepcional  Qualidade. 
Os qualificativos super-ruby ou premium-ruby talvez caracterizassem melhor esta categoria do Vinho do Porto. Assim como o Tawny, o Vintage, Charater também é obtido a partir da mistura de diversos vinhos,  apresentando-se no entanto mais frutado e encorpado ao invés de leve e delicado. O verdadeiro  Vintage Character pode ser considerado um "vinho em movimento", Passa por uma infância forte e encorpado, uma maturidade mais equilibrada  e complexa, até atingir um envelhecimento mais digno, fascinante mais frágil. A maior parte destes vinhos apresenta-se jovem, com uma idade média de quatro a seis anos, enfatiza o amadurecimento. O vigor e o corpo;  outra, incorpora uma grande proporção de vimhos mais velhos, de maneira a obter uma maior profundidade suavidade e complexidade.
Há ainda os suaves, abertos e macios, sendo no entanto suficientemente frutados e quentes para serem considerados parte da familia.
     - As castas utilizadas para produzir os vintage  Character provém das melhores propriedades do Douro. Assim 18% da produção do Vinho do Porto procede das mais prestigiadas propriedades, sendo 6 % deste numero destinados aos vinhos Vintage, LBV, Colheita e Tawny com indicação de idade. Os restantes 12% correspondem ao Vintagem Character, que constitui assim  a maior das categorias de elite.

RUBY
Este vinho jovem e frutado provém geralmente da região mais a oeste do Douro, onde a precipitação é abundante e a produção generosa. Habitualmente o vinho  não tem mais de três anos e deve ser consumido enquanto jovem, uma vez que o seu carácter reside na sua frescura e aroma.

TAWNY
     - Ainda que normalmente também proceda da região mais a oeste do Douro, este tipo de vinho apresenta uma tonalidade menos intensa do que o Ruby e raramente tem mais do que três anos. A sua leveza e elegância derivam da menor extração de cor pelo pouco contacto com as películas da uva durante a fermentação. Os Franceses apreciam tanto esta categoria que a consideram como o perfeito aperítivo, consumindo milhões de caixas deste tipo de vinho do Porto por ano.

BRANCO
     - O vinho do Porto branco é elaborado a partir de castas brancas, seguindo o mesmo processo de vinificação utilizado para o vinho do Porto tinto. É transparente e claro. As principais castas utilizadas na sua elaboração são: Viosinho, Malbvasia, Fina, Gouveio, Côdega, e Rabigato. São vinhos que podem variar do extra-seco, meio seco, ao muito doce, sendo neste caso designado por "Lágrima". Os vinhos brancos secos podem apresentar no rótulo a designação "seco"  ou "apéritif".  Os restantes vinhos são considerados extra secos. Tanto os vinhos secos com os extra secos, podem ser bebidos puros, ou on the rocks, com club soda ou água tónica, guarnecidos com uma rodela de limão. Existe ainda o chamado branco leve seco, que se distingue não apenas por ser um vinho branco seco, mas igualmente pelo seu teor alcoólico de somente 16,5 ao contrário dos 205 usuais.

CONSERVAR, DECANTAR E SERVIR
     -Cada tipo de vinho do Porto corresponde a características  bem distintas. Assi, ao comprar uma garrafa, deve ler-se atentamente o rótulo e ter em consideração o momento em que vai ser consumido. Os vinhos do Porto apresentam aromas diferentes de acordo com o tipo e duração do envelhecimento. Os mais jovens de aroma frutado adaptam-se de modo natural às mais diversas ocasiões, ao passo que os tawny velhos, com mais de 20 anos, bem como os colheita ou os vintage, de aromas mais complexos, requerem situações calmas , com alguma solenidade e ritual.

AGUARDENTES

- No grupo das aguardentes incluem-se as aguardentes vínicas propriamente ditas e as aguardentes de bagaço ou bagaceiras e as aguardentes de frutos. Quando envelhecidas em cascos de madeira (carvalho), as aguardentes vínicas adquirem, por influencia da própria madeira e do tempo, características especiais. Em face das condições de preparação e envelhecimento, com acção nas próprias características, as aguardentes vínicas são designadas por aguardentes velhas ou preparadas.
- O termo brandy, pode ser usado como sinónimo de aguardente vínica envelhecida,subentendendo-se que, sem qualquer outro qualificativo, corresponde à aguardente preparada.
Quanto às aguardentes é de referir que são muito frequente empregadas na rotulagem estrelas e outras indicações que exprimem o grau de envelhecimento, uma vez que é factor determinante do valor do produto.Em Portugal entende-se que o significado das expressões seja o seguinte:
Cinco estrelas "fina"
- V.S.,V.O. ou V.V.O. - produto de qualidade, com um envelhecimento mínimo de quatro anos
- V.S.O.P. aguardente reserva com envelhecimento mínimo de cinco anos.
- V.A.V.E. (verdadeira aguardente de vinho espumante)
X.O. Reserva com envelhecimento superior a trinta anos
- Finissima, Velha reserva, Velhíssima - produto de qualidade, com um envelhecimento mínimo de cinco anos.
- Ao falar-se de vinhos e aguardentes de origem vínica parece-me oportuno consagrar algumas palavras às aguardentes de outras origens e aos licores. estes produtos constituem, com as aguardentes de origem vínica o conjunto das chamadas bebidas espirituosas, caracterizadas essencialmente pela presença de álcool proveniente da destilação de produtos resultantes da fermentação alcoólica de matérias vegetais que satisfaçam as condições legalmente estabelecidas. As aguardentes distinguem-se dos licores porque aquelas são compostas principalmente de álcool e de água, contendo geralmente substâncias, cujo conteúdo lhes confere o seu sabor e aroma característicos, ao passo que os licores são caracterizados pela presença de açúcar e de matérias aromatizantes naturalmente existentes ou adicionadas. De entre as aguardentes a que nos referimos quero salientar as seguintes: aguardente de Pera, de Maça, de figo, de medronho, de cereja, de cana, de MEL (cera) etc.

OS ESPUMANTES

Depois da invenção do vinho espumantizado, na região de champagne, em França, no inicio do século XVIII, passaram muitos anos até se passar à fase industrial.Com a criação das primeiras marcas e empresas. com o tempo, o sucesso deste tipo de vinho ultrapassou as fronteiras francesas e outros países começaram a produzir espumantes segundo o método original champanhês.
Um dos primeiros a faze-lo foi Portugal, onde a partir de 1880, no coração da Bairrada, começaram a surgir as primeiras caves. Hoje em dia, os grandes pólos de produção de espumantes, no nosso país, situam-se nesta região e na zona de Lamego.
Na categoria dos espumantes, existem
dois tipos de produção: (método charmat, ou cuba fechada, e método campanhês).

MÉTODO CHARMAT
- O método charmat ou em cuba fechada é produzido a partir de um vinho base que é feito refermentar numa cuba fechada, desenvolvendo-se naturalmente o gás carbónico, e sendo depois engarrafado. A partir daqui está pronto par entrar no mercado e ser consumido.
No rótulo possui a indicação "Método Charmat".

MÉTODO CHAMPANHÊS
- O método champanhês (ou método clássico) é o espumante de maior categoria e qualidade. Este método, trabalhoso e sofisticado, consiste muito genericamente em encher as garrafas com um vinho ao qual foram adicionadas leveduras para que torne a refermentar.
A garrafa é então fechada com uma cápsula metálica provisória e o vinho refermenta no seu interior, criando o gás. O vinho envelhece então durante um tempo determinado consoante a sua categoria, e nunca inferior a nove meses, podendo ir até quatro anos.
- O PROCESSO DA REMUAGE.
Quando se aproxima a data de ir para o mercado, as garrafas são retiradas da cave onde estagiaram na posição de deitadas, e colocadas numas estantes especiais de madeira, de gargalo para baixo, sendo rodadas manualmente uma vez por dia de um quarto de volta e a mesma em inclinação, durante três semanas, muito lentamente, de forma a que o deposito originado pela fermentação escorra para o gargalo. Chama-se a este processo a Remuage (este processo actualmente em algumas empresas já é feito mecanicamente).
- O DEGORGEMENT.
terminada a remuage e mantendo sempre as garrafas de gargalo para baixo, estas são levadas para a fase seguinte, o "Degorgement"
Processo que consiste na congelação ultra rápida do gargalo da garrafa, onde a cápsula metálica é retirada, e o depósito expulso para o exterior. Aí cabe atestar de novo a garrafa com vinho igual ou vinho misturado com licores, consoante o grau de doçura pretendido, Bruto,Seco, Meio Seco ou doce e colocada a rolha de cortiça definitiva. terminado todo este processo o espumante está finalmente pronto e em condições de ser consumido.
Os melhores vinhos são geralmente deixados naturais, ou seja bastante secos, que corresponde à designação de Bruto.Existem no entanto, espumantes em todo o grau de doçura: seco, meio seco (ou meio doce), e doce.

VINHO ESPUMOSO
- Vinho espumoso "o falso espumante" é precisamente um falso espumante porque de espumante só contém a espuma que afinal é artificial.
Trata-se de um vinho vulgaríssimo onde foi injectado gás carbónico por métodos artificiais. Para se distinguir do verdadeiro espumante é obrigatório possuir no rótulo a indicação "Vinho Espumoso Gaseificado".

ESPUMANTE TINTO BRUTO

- Uma especialidade que não podia deixar de mencionar.
Trata-se de um espumante produzido nos mesmos moldes do anterior, com uma particularidade ser produzido com vinho tinto.
Normalmente não é consumido da mesma forma.
Serve em especial para acompanhar pratos especiais: como leitão, Chanfana etc.
Aqui entra o gosto de cada consumidor.

sábado, 24 de Outubro de 2009

SERVIR O VINHO

Apreciar um vinho uma arte que cada um poderá desenvolver individualmente. À medida que bebemos vinhos, lemos e conversamos sobre eles, a capacidade de distinguir as suas diferentes características desenvolve-se naturalmente. A escolha do vinho deverá estar associada ao prato que vai ser servido, e os convidados que o vão degustar. A ordem de servir os vinhos deverá obedecer a algumas regras; assim, primeiro devem servir-se os vinhos brancos e depois os tintos, os vinhos mais leves e no fim os mais encorpados, os secos e depois os doce.

Ao servir o vinho deverá ter alguns cuidados
Abrir a garrafa correctamente
Observar se o vinho necessita ser decantado.

A DECANTAÇÃO

- A operação de decantação, é uma operação delicada, que pode ser necessária quando o vinho apresenta depósito. Os vinhos velhos, com mais de 10 anos, desenvolvem sedimentos podendo, por isso, necessitar ser decantados. Caso opte por não decantar o vinho deve servi-lo com maior cuidado, não inclinando demasiadamente a garrafa. Segure o copo inclinando-o ligeiramente, e verta o vinho o mais regularmente possível. Se optar por decantar o vinho deverá ter os seguintes cuidados;Antes de decantar, a garrafa deve ficar 24 a 48 horas na posição vertical para que o depósito fique todo no fundo. Depois de retirar a rolha, verta lenta e progressivamente o vinho da garrafa para o decanter. Esta operação deverá ser efectuada na presença de fonte de luz, podendo assim ver perfeitamente a chegada do depósito.
Para servir o vinho à temperatura correta, muitas vezes assinalada no contra-rótulo da garrafa, torna-se útil dispor de um termómetro. Relativamente à temperatura a que os vinhos devem ser servidos, existem alguns erros que deverão ser evitados Quanto aos vinhos brancos, não deve guarda-los por muito tempo no frigorífico (refrescar o vinho branco no frigorífico ou num balde com gelo no dia do consumo é suficiente) não deve gelar excessivamente o vinho, não deve utilizar o congelador, nem deitar gelo no vinho. Quanto ao vinho tinto, não deve aquece-lo demasiadamente, em principio a temperatura da sala deverá ser o suficiente.


OS COPOS
- Para melhor apreciar completamente a "personalidade" das castas e o subtil carácter dos vinhos, é essencial utilizar o copo apropriado.
Assim que levamos um copo à boca, o sentido do paladar fica em alerta. Ao bebermos, automaticamente são transmitidas três mensagens: a temperatura, a textura e o sabor.
O vinho é composto por diferentes elementos: frutos, acidez, componentes minerais, taninos e álcool. A combinação entre a apreciação do cheiro e do gosto conduzem-nos ao maravilhoso mundo do sabor. Para melhor apreciar o vinho devem ter-se em conta os seguintes aspectos relativamente aos copos.
Quanto ao vidro este deverá ser: sem cor, transparente, sem adornos, paredes finas, com o bordo fino, com pé e de bom vidro. O tamanho do coo é importante, permitindo mostrar a qualidade,e intensidade dos aromas. O espaço de evaporação tem de ser escolhido de acordo com a "personalidade" do vinho. Quanto à capacidade de uma maneira geral, um copo deverá ter capacidade suficiente para seis a oito centilitros de vinho ocupando apenas um terço ou pouco mais do seu volume, (nunca mais de metade da sua capacidade), sendo o resto reservado ao bouquet.

A GARRAFEIRA DA CASA
- Os vinhos devem ser guardados num lugar escuro, a uma temperatura de 10a 12 graus centígrados, uma humidade de 60%, não se devendo verificar grandes variações nestes valores. Temperaturas mais elevadas, na ordem de cinco graus, não estragam os vinhos mas fazem com que envelheçam mais rapidamente. Assim sendo, se não controlar suficientemente a temperatura a que a sua garrafeira se encontra, não deverá aí manter os vinhos por muito tempo. As garrafas devem ser disposta na horizontal para se evitar que a rolha seque, ao contrário, as aguardentes os whiskis e licores devem estar de pé para que o álcool não ataque a rolha metálica com que normalmente são fechadas.

VINHO VERDE

Quando se fala de vinho verde, fala-se, também do Minho, Ou mais precisamente do noroeste de Portugal, Região que exibe, ao longo do ano uma exuberante verdura. Há quem diga que o nome dos vinhos aí produzidos constitui uma homenagem a essa cor. Mas também há quem afirme que o nome fica a dever-se ao facto de se tratar de um vinho feito a partir de uvas verdes, o que não corresponde á realidade. As características dos vinhos são determinadas pelas castas, pelo clima,e pelo modo como as videiras são tratadas.
- Que características são essas?
Em primeiro lugar, trata-se de vinhos com baixa graduação alcoólica, e em segundo lugar são vinhos com uma acidez elevada. Por ultimo,possuem o chamado "pico" ou agulha ou seja são vinhos ligeiramente gasosos. O vinho verde representa entre 15 e 20% da produção vinícola em Portugal.

A REGIÃO DOS VINHOS VERDES

- OS SOLOS desta região são de origem granítica. A sua relativa pobreza natural tem sido tem sido compensada pelos agricultores que ao longo dos séculos os têm estrumado intensamente aumentando assim a sua fertilidade.
- O CLIMA da região caracteriza-se por um verão fresco e um inverno ameno, muita chuva, bastante humidade e algum vento, sobretudo vindo do mar. Em termos gerais, pode afirmar-se que os vinhos provenientes de zonas frescas e a região dos vinhos verdes pode ser assim considerada tendem a ser pálidos, leves e frescos, como é o caso do vinho verde.
- CASTAS nos últimos tempos, tem sido0 feito um esforço para seleccionar as castas que melhor se adaptam ás sub-regiões. Assim cada uma das seis sub-regiões dispõe de um naipe de castas "recomendadas" e de um outro de castas "autorizadas". As castas brancas recomendadas para a produção de vinhos verdes dão pelo nome de Alvarinho, Avesso, Azal, Loureiro, Pedernâ e trajadura.

O PROCESSO DE FABRICO do vinho verde é idêntico a tantos outros , com duas particularidades; estes vinhos praticamente não têm estágio ( ou seja estão armazenados durante muito pouco tempo, antes de ser engarrafados e é usual adicionar-se dióxido de carbono, para se obter o tradicional pico ou agulha. Terminada a fermentação, o vinho é submetido a processos de filtragem e estabilização
- Actualmente os vinhos são gaseificados de forma artificial com dióxido de carbono.
A chamada fermentação secundária ou maloláctica, que era responsável pelo gás natural do vinho é contrariada pela adição de anidrido sulfuroso e pela filtragem. Isto é feito porque a dita fermentação provoca uma turvação dos vinhos o que não agrada aos consumidores. Por outro lado, pretende-se manter uma certa acidez, garantindo uma maior frescura, característica dos vinhos verdes.

ACIDEZ - Os ácidos presentes no vinho são provenientes das uvas ou da fermentação. A acidez total de um vinho é composta pela acidez volátil e pela acidez fixa. Se a acidez volátil for muito elevada, o vinho pode adquirir um gosto desagradável. Quanto à acidez fixa, contribui para que o vinho se conserve e mantenha uma certa frescura.

AÇÚCAR - A quantidade de açúcar presente no vinho define a sua categoria seco,meio seco, ou doce. Para se obter vinhos com diferentes graus de doçura, adiciona-se mosto concentrado ao mosto.

CONSERVANTES - O Anidrido sulfuroso é indispensável á conservação dos vinhos. Mas a dose a adicionar deve ser rigorosamente calculada. Se for excessiva, o vinho ganha um odor picante e um sabor desagradável. Se for pequena demais, o vinho o vinho não fica protegido das oxidações e das refermentações dos açucares. Quanto ao ácido sórbico, apesar de a sua utilização estar prevista na lei, o seu uso não se revela muito eficaz; impede a multiplicação das leveduras e a refermentação dos açucares, mas não impede que surjam determinadas alterações indesejáveis no vinho. O vinho verde branco deve ser servido a uma temperatura de entre os 8 e os 10 graus c.

O VINHO

Do ponto de vista técnico-legal, o vinho é a bebida resultante da fermentação alcoólica, total ou parcial, de uvas frescas ou do seu sumo, segundo processos tecnológicos apropriados.
Estreitamente ligadas aos vinhos estão as aguardentes de origem vínica, bebidas de mais elevada graduação alcoólica, provenientes, conforme os casos, da destilação dos vinhos ou dos bagaços da uva. Como resultado dos diferentes processos tecnológicos empregados no seu fabrico, os vinhos apresentam por vezes características profundamente diversas, pelo que se podem repartir por vários tipos ou classes. dentro do mesmo tipo ou classe, as características podem também variar segundo as castas de uvas empregadas e a natureza do clima e do solo em que se situam as vinhas.
-De entre os vários elementos que contribuem para a caracterização e identificação dos produtos vínicos tem lugar de destaque o conjunto misto de factores, naturais e humanos, constituído por clima, solo, castas, processos de cultura e vinificação, ou seja, aquilo que na essência justifica o reconhecimento internacional de certas denominações de origem porque são conhecidos os principais vinhos e aguardentes de alguns países.
As denominações de origem regulamentada estão em Portugal ligadas a regiões legalmente demarcadas. Mas o carácter regional dos produtos vínicos estende-se para além daqueles que beneficiam de uma denominação de origem regulamentada. A indicação de proveniência reveste-se, assim de grande importância, pelo que em muitos países é usualmente indicada nos rótulos dos diversos vinhos engarrafados.
As características e o valor dos vinhos podem também variar de ano para ano.

HISTÓRIA DO VINHO

Não se sabe ao certo quando surgiu o vinho em Portugal, Admitindo-se que tenham sido os fenícios os primeiros a aqui cultivar a vinha.
-A cultura da vinha em Portugal, pelas condições de solo e clima aliados à existência de diferentes castas em cada região, permite permite a produção de vinhos de qualidade e com manifesta tipicidade.
-A cultura da vinha em Portugal.Desde há muito constatado tal facto, levou a que diversas regiões vitivinícolas tivessem sido estruturadas de modo a permitir uma regulamentação conveniente na produção e comércio dos vinhos de qualidade.
-É neste aspecto importante salientar que Portugal foi dos primeiros, se não mesmo o primeiro país do mundo vitícola, a estabelecer e regulamentar uma região demarcada, a região do Douro, por alvará régio de 1756. Mais tarde, por carta de lei de 1907 - 1908, foi dado início ao processo de demarcação e regulamentação das regiões dos vinhos Verdes, Dão, Colares, Carcavelos, Bucelas , Moscatel de Setúbal,e Madeira para além da região do Douro, que actualmente contempla as denominações de origem Porto e Douro.
Posteriormente, e apenas em 1979, foi reconhecida a região da Bairrada.
Em 1980 foi reconhecida a denominação Algarve ( mais tarde regulamentada) 1990,e substituída por quatro denominações: Lagoa, Lagos, Portimão e Lavra tendo-se procedido então à sua demarcação.
-Em 1986 foram reconhecidas as primeiras regiões do Alentejo - Borba, Redondo, Reguengos,Portalegre e Vidigueira tendo sido reconhecidas em 1991, Évora Moura, e Granja Amareleja.
Também em 1986 foram reconhecidas, como denominações de origens correspondentes aos vinhos de qualidade produzidos em zonas vitícolas de interesse, as seguintes regiões: Chaves, Planalto Mirandês, Valpaços, Castelo Rodrigo,Pinhel, Cova da Beira, Encostas de Nave, Varosa, Lafões, Alcobaça, Encostas de Aire, Óbidos, Arrábida, Palmela, Almeirim, Cartaxo, Chamusca, Coruche, Santarém, Tomar, Alenquer, Arruda e Torres Vedras.
-Em 1994 obtiveram reconhecimento de denominação Biscoito, Graciosa e Pico.


CLASSIFICAÇÃO DOS VINHOS

CONHECER OS DIFERENTES TIPOS DE VINHO
Num pequeno país como é Portugal, existe uma extraordinária variedade de clima, solos, e castas, que dão origem aos mais diversos tipos de vinho.
A classificação dos produtos vínicos pode ser feita sob vários aspectos, parecendo-me de interesse, do ponto de vista gastronómico, a que os separa em:
-Vinhos generosos e licorosos
-Vinhos doces de mesa brancos e rosés
-Vinhos comuns ou de mesa brancos e tintos
-Vinhos espumantes e espumosos.

CLASSIFICAÇÃO DOS VINHOS

CONHECER OS DIFERENTES TIPOS DE VINHO
Num pequeno país como é Portugal, existe uma extraordinária variedade de climas, solos e castas, que dão origem aos mais diversos tipos de vinho.
A classificação dos produtos vínicos pode ser feita sob vários aspectos, parecendo-me de interesse, do ponto de vista gastronómico, a que os separa em:

- Vinhos generosos e licorosos
- Vinhos doces de mesa brancos e rosés
- Vinhos comuns ou de mesa brancos e tintos
- Vinhos espumantes ou espumosos

VINHOS GENEROSOS
-A característica comum dos produtos em que se incluem os vinhos generosos e licorosos é a sua elevada graduação alcoólica, entre 17 e 22 graus que resulta da adição durante o processo de fabrico de aguardente ou álcool viníco. Em Portugal dizem-se generosos os vinhos licorosos provenientes das regiões demarcadas do Douro, (vinho do Porto), vinho da Madeira, vinho de Carcavelos e Moscatel de Setúbal,

VINHO DA MADEIRA
- O vinho da madeira é igualmente apresentado em diferentes graus de doçura, frequentemente sob a designação da casta respectiva característica:
Sercial (seco), Verdelho (meio seco), Boal (meio doce), e Malvasia (doce).
O vinho da casta Terrantez, muito raro, é de grande notoriedade.

VINHO DE CARCAVELOS
- O vinho de Carcavelos é apresentado ao público nos tipos seco e doce, sendo o seco o mais característico.

VINHO MOSCATEL
- O vinho moscatel é sempre do tipo doce, com maior ou menor grau de doçura
O moscatel de Setúbal é produzido em solos arenosos da região de Palmela e argilo-calcário da região da Arrábida, a partir das castas Moscatel de Setúbal (ao que tudo indica uma recriação da casta Moscatel de Alexandria), Boal, Malvasia, Roupeiro e Vital. Estagia em barris de carvalho usado, por um período mínimo de dois anos.
- Em novo, deve ser apreciado como aperitivo e levemente fresco. Os velhos devem ser apreciados como vinhos de sobremesa. A casta Moscatel Roxo produz um vinho raríssimo com o mesmo nome, que constitui a excelência do Moscatel de Setúbal.

- Entre os vinhos Licorosos não generosos merecem menção os da Estremadura, do Ribatejo e ainda os do Algarve em particular os de Lagoa.
Neste grupo incluem-se também os vinhos aperitivos e medicinais ( por vezes chamados aromatizados), abrangendo vermutes, amargos,quinados, etc.
São ainda de referir as jeropigas e vinhos abafados, que são os produtos do mosto da uva ao qual se adicionou aguardente vínica antes ou no inicio da fermentação de modo a não permitir o desenvolvimento ou persistência da mesma.
Do vinho do Porto falarei mais adiante.

VINHOS DE MESA
- Os vinhos doces de mesa, brancos e rosados, ou rosés, são caracterizados por um certo grau de doçura de paladar.
- Os vinhos rosés caracterizam-se ainda pela cor, resultante do processo de fabrico especial e por uma certa gaseificação. Embora os vinhos portugueses deste grupo não provenham de regiões vitícolas determinadas para o seu fabrico são escolhidas as uvas de castas produzidas em diversas regiões propícias.
- Os vinhos comuns ou de mesa são os que têm uma graduação alcoólica normalmente não superior a 13 graus de vol. sem anidrido carbónico ou com pequena percentagem de gás, dizendo-se neste caso, que têm agulha ou frisantes. Dos vinhos que não revelem possuir qualquer gás diz-se que são tranquilos. Uns e outros se não manifestarem uma certa doçura de paladar dizem-se secos, se forem levemente doces, são chamados doces ou adamados.

O QUE É UM V.Q.P.R.D.?
VQPRD corresponde à abreviatura de Vinho de Qualidade Produzido em Região Determinada. Por região determinada, entende-se uma zona vitivinícola com limites geográficos bem definidos, com solos e vinhas registadas e aptos a produzir vinho de qualidade a partir de determinadas castas bem identificadas. A este nível, existem duas subcategorias: DOC e IPR.
Na primeira DOC, congregam-se as antigas regiões demarcadas que a seguir irei descrever. Num patamar mais abaixo inserem-se as IPR, que incluem todas as novas regiões entretanto criadas. Os IPR são por assim dizer, "regiões á experiência"

O QUE É UM D.O.C.?
- Denominação de Origem Controlada
Designação atribuída a vinhos cuja produção está tradicionalmente ligada a regiões geograficamente delimitadas e sujeitas a um conjunto de regras consignadas em legislação própria; (características dos solos, castas recomendadas e autorizadas, práticas de vinificação, teor alcoólico, e tempo de estágio. Na prática, têm este estatuto as mais antigas regiões produtoras destes vinhos.

O QUE É UM I.P.R.?
- Indicação de proveniência Regulamentada
Vinhos que embora tendo características particulares, terão de cumprir, num período mínimo de 5 anos, todas as regras estabelecidas para a produção de vinhos de grande qualidade, tais como: castas, solos, teor alcoólico, etc.
Podendo então passar á classificação de DOC.
Por outras palavras as novas regiões criadas em Portugal são IPR, as antigas regiões demarcadas são hoje as DOC.

O QUE É UM VINHO REGIONAL?
- São vinhos comuns de uma região especifica, produzidos a partir de, pelo menos 85% de uma ou mais castas recomendadas ou autorizadas nessa região.
Esta classificação é dada aos vinhos não enquadrados com as regras exigidas para classificação de DOC. ou IPR. São vinhos produzidos numa região especifica de produção, cujo nome adoptam, e satisfazem determinadas condições de produção (teor alcoólico, proveniência das uvas, etc.

O QUE É UM VINHO DE MESA?
- Esta denominação é dada aos vinhos em cuja produção não são seguidas as mesmas regras e controle que obrigam á classificação de vinhos regionais, I.P.R. e D.O.C.

RESERVA
- Segundo a tradição "Reserva" era o vinho que o produtor guardava para consumo familiar.
Designativo de qualidade associado ao ano de colheita, apresentando um índice de qualidade destacada e um grau alcoólico volumétrico superior, pelo menos em 0,5% ao limite mínimo legalmente fixado. A designação "reserva" só é atribuído a um vinho de qualidade superior com certo envelhecimento e volume determinado e sempre associado ao ano de colheita.

GARRAFEIRA
- É também, um índice de qualidade sujeito a normas próprias, que pressupõe um estágio prolongado do vinho em garrafa, antes de ir para o mercado. Com um envelhecimento em garrafa mínimo de 2 anos para o branco e 3 anos para o tinto e com indicação do ano de colheita.

domingo, 18 de Outubro de 2009

NAS BEIRAS, COME-SE BEM...


Comer bem é sem dúvida algo que nós por cá. beirões, podemos apregoar bem alto! De certo que quem conhece as beiras, não discordará pois sabe que aqui existe uma culinária tipicamente tradicional da gente do povo, desenvolvida com base nos produtos regionais caseiros, com tradição secular passada de geração em geração. São de salientar os enchidos, os queijos, o cabrito, o borrego e o porco.

Tendo em conta que o pastoreio é um dos principais meios de subsistência destas gentes sobressai a grande tradição dos pratos com base na carne de cabra e ovelha. Dos mais notáveis o cabrito na grelha, o cabrito estonado, sem esquecer o tão saboroso cabrito no forno à moda da minha terra, a famosa chanfana das Beiras, um prato típico que nunca falta na mesa das gentes beirãs em dia de comemoração festiva, um prato confeccionado com carne de cabra adulta, levada ao forno em caçarolas de barro preto, o forno que ainda é aquecido a lenha, onde a carne coze lentamente durante várias horas, o que lhe confere um sabor inigualável. Os tão famosos maranhos, prato típico muito apreciado. Ah e a afamada matança do porco (que é sempre tornada numa festa!), os tradicionais torresmos, que vêm com a matança do porco, iguaria que já raramente temos o prazer de saborear na minha terra devido ao facto de já praticamente ninguém se dedicar a esta tarefa.

Claro que já terão percebido que na minha terra quem quiser comer bem ou menos bem terá de ser em casa de família ou amigos, porque restaurante é algo que não existe. Mas existe gente de bons costumes, hospitaleira e de grande carácter, que tem o condão de fazer amigos com muita facilidade, capaz de convidar para a sua casa e sentar à sua mesa qualquer viandante. Mas por momentos, desviei-me do essencial, comer bem. E por falar de comer estou a lembrar-me daquele bolo de cebola cuja base é a cebola, e se adiciona carne ou bacalhau ou sardinhas, conforme a disponibilidade. Bolo este que era regra obrigatória quando se cozia broa, actividade que era normalmente realizada uma vez por semana. Para quem não conhece, acreditam, é uma iguaria sem igual. Uma especialidade da minha terra, Carvalhal do Sapo.




quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

CHANFANA PARA O ALMOÇO DE DOMINGO

Enquanto o membro mais recente da família se actualiza lendo a revista domingo

o forno já está a aquecer, um dos primeiros preparativos do dia

vamos iniciar por aqui, um aperitivozito não faz mal a ninguém


Iremos acabar por aqui, um bom scotch

Ou talvez por um bom cognac, também diz bem
sem esquecer a moderação. Lindos meninos assim é que é

Enquanto a carne de cabra velha vai macerando em tempero do dia anterior


Entretanto è altura de fazer a escolha da pomada para fazer o acompanhamento do prato,visto isso ser uma regra obrigatória para comer bem na minha terra.

Talvez um espumante tinto bruto, ou um Dupla da Bacalhoa vinhos, Magnum com 14,5% vol, produzido por dois enólogos: Filipa Tomáz da Costa e Vasco Penha Garcia, bons profissionais na arte de fazer bons néctares. Já cresce água na boca! continuem para ver.

O tabuleiro a entrar no forno previamente aquecido a lenha como vamos ver (pena que o tabuleiro não seja de barro preto como exige a tradição)
E como devem ter reparado já tenho a camisa molhada, e sem dúvida que foi o resultado da árdua tarefa de aquecer o forno, não foi do aperitivo, um moscatel roxo de 25 anos. São servidos, de aquecer o forno claro!

entretanto vamos temperar um tabuleiro de maçãs reinetas para assar ao mesmo tempo que a carne e as batatas, no forno com um tempero especial da casa incluindo um bom vinho do Porto

Uma pequena vistoria ao forno e uma mexida para que a carne fique alourada por igual


Mais uma vistoria e após uma prova, está quase pronta,vamos aguardar para mais uns minutos

Está deliciosa vamos tirar do forno! Vão se chegando ah!ah!ah!

Tabuleiro a caminho da mesa, começam a ouvir-se rumores e o arrastar de cadeiras...
.
Quanto à pomada decidi por um Tinto da Ânfora Grande Escolha de 2006 da Bacalhôa Vinhos de Portugal. Muito adequado para este prato, e disso sei eu acreditem. A Dupla magnum fica para a próxima, talvez vá acompanhar um bacalhau com batata a murro, acreditem que fazem um lindo casal.


Ah! Ainda não tinha falado das espectaculares batatinhas assadas com umas cebolinhas no forno, para acompanhar a deliciosa chanfana, sem dúvida casam muito bem.

A família já está reunida a volta da mesa, para iniciar mais um sacrifício de Domingo, ter de almoçar. Que tal são servidos de nos acompanhar neste sacrifício ?

Para a próxima amigos... para esta já é tarde. Estas imagens revelam os passos da preparação do almoço familiar de domingo em nossa casa em Azeitão, no dia 27 de Setembro 2009.

Garanto tudo foi usado com a maior moderação!!! Duvidam? paciência. Como se devem lembrar eu disse domingo, como tal é dia de descanso, e não há nada melhor que após o almoço se faça uma sestasita para retemperar as forças e tudo volta ao normal. É conveniente mantermos a forma, não podemos faltar aos treinos; entendidos! Ok?

Não podia deixar passar esta oportunidade, tendo em conta que no mês de Outubro está a decorrer no blog www.aldeiadaminhavida.blogspot.com, o tema, na minha terra come-se bem, façam uma espreitadela a este blog e vão ficar surpreendidos pela positiva. Podem colaborar com textos ou simples comentários. Já enviei o meu texto, não percam.

Acácio

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

O Carvalhal e o milho



Longe vão os tempos em que ao percorrermos a rua da volta da procissão ou a rua da escola, na aldeia de Carvalhal do Sapo era lindo ver aquelas terras que serviam de estendedouro, com mantas de retalhos, estendidas sobre palha de centeio, cobertas de milho estendido que secava ao sol de Setembro para depois guardar nas arcas, que ao longo do ano iria ser usado no fabrico da farinha com que produziam a broa indispensável à alimentação dos habitantes da aldeia. Um quadro lindo mas longínquo, pois hoje já pode parecer uma miragem, ter o prazer de apreciar uma imagem real com milho a secar ao sol nesta aldeia. Contudo foi com algum agrado que há dias numa visita que fiz à minha aldeia, tive a sensação de estar a ter uma miragem, um oásis no meio do deserto, encontrar uma dessas velhas mantas com milho estendido, debulhado e em espiga que secava ao sol. Prova disso é uma fotografia que fiz para provar a mim mesmo que não era uma miragem e para poder mostrar a gerações vindouras, como era tratado o milho, após as debulhas, nas aldeias que nos deram vida e nos ensinaram a viver os primeiros anos da nossa existência, no meu caso de toda a minha adolescência. É com muita alegria e saudade que recordo estes tempos. Elogio com sinceridade as pessoas que ainda têm coragem de se aventurar nesta tão árdua tarefa. Um bem-haja por me terem proporcionado um momento de tão rara beleza.

sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

CARVALHAL DO SAPO - FESTAS EM HONRA DE S. JOÃO

A maioria das aldeias do concelho de Góis tem as suas festas no mês de Agosto, no Carvalhal do Sapo, a tradicional festa é em honra a S. João e como tal é celebrada em Junho, no fim-de-semana que mais perto se situe de dia 24. Esta situação vem da comum desertificação que, infelizmente, cada vez mais acontece nestas zonas, o que antigamente era uma celebração de 3 dias, é actualmente um dia. Contudo, apesar de ser apenas um dia, é um dia de muita alegria, com muitas tradições e que traz ao encontro os amigos de longa data, que muitas vezes apenas se encontram por esta altura.

As festas em honra de S. João são obviamente preparadas ao longo do ano, com a dedicação e carinho que os carvalhalenses têm pela sua aldeia, mas é nos dias anteriores que mais se nota o alvoroço, os enfeites pelas ruas (durante o ano preparados à mão pelas pessoas da aldeia), as luzes, o embelezamente de uma aldeia já bonita, o cheirinho da chanfana que emana dos tradicionais fornos aquecidos a lenha, as filhós, o pão-de-ló, são iguarias típicas da aldeia que neste dia é obirgatório em todas as mesas. O dia da festa que começa bem cedo com a música a animar a aldeia inteira, seguida pela missa, ultimamente celebrada no adro da capela, o que começou por a ser capela ser pequena e não chegar para todos os participantes, torna agora a missa num acto religioso num ambiente descontraído e que traz ainda mais participantes para no final ser feita a volta da procissão (em torno da aldeia) com os santos padroeiros da aldeia, é bonito ver todas as pessoas a percorrer as ruas com os seus trajes festivos e de cara alegre ao som da banda filarmónica. A tarde é de convívio e alegria a rever os amigos, a ouvir as velhas histórias da infância e ver as crianças brincarem alegremente. E nada melhor para terminar que o tradicional bailarico, sempre com boa música e pessoas animadas que vêm de outras aldeias para todos festejarmos mais um ano de coisas boas e más sempre com a protecção do nosso querido padroeiro

sábado, 25 de Julho de 2009

Album de Fotos de Gois-Carvalhal do Sapo




Se gostarem das Fotos é so clicar nelas para ver em tamanho real. Seria importante tambem fazer alguns comentarios ás fotos isso podia ajudar-me a gerir melhor a qualidade do album. Obrigado.

quarta-feira, 17 de Junho de 2009

RECORDAR O CARVALHAL NO ANTIGAMENTE


Mais uma vez fui à minha aldeia, aproveitando os feriados de Junho, que anexos a uns três dias de férias resultou numa maravilhosa semana de descanso, em companhia da família incluindo o membro mais recente, a Catarina, que com a sua presença e a sua sempre boa disposição nos faz sentir as pessoas mais felizes deste mundo e uns avós muito babados. Foi levada pela primeira vez a sentir o prazer de um passeio matinal a beira do Ceira no cerejal em Góis e sentir o prazer de poder meter os pés naquela água, pura e cristalina, o que fez com grande alegria e espontaneidade podendo assim desde bem pequenina começar a desfrutar das maravilhas que a nossa terra nos oferece. Sem dúvida que as praias do rio Ceira em Góis, são um oásis, que ao primeiro olhar, nos convidam a desfrutar um bem que já não é assim tão vasto, uma praia fluvial com águas puras e cristalinas, sem qualquer tipo de poluição que nos convida ao ócio e ao mergulho, com umas umas boas braçadas e a podermos espraiar num lugar na areia, ou num belo relvado que ladeia as margens do Ceira tendo ainda a vantagem de poder escolher um lugar ao sol ou à sombra. Seria deveras injusto omitir a qualidade das esplanadas que são colocadas á beira rio, durante a época balnear, onde podemos mitigar os nossos desejos e dar a paz e conforto que o nosso âmago anseia e bem merece.
Comecei por dizer que a ida foi à minha aldeia , mas tenho de confessar que reparti o tempo pela minha aldeia e pela vila de Góis, o que já é habitual, como há parte da família que se sente melhor na vila, sinto-me na obrigação de partilhar esse desejo que também não me desagrada.
E esse maior interesse pela vila só acontece porque esta geração mais nova, não desfrutou daqueles prazeres de antigamente passados no Carvalhal, as sementeiras agrícolas, trabalho árduo mas que era sempre desempenhado com o maior afinco, e a maioria era sempre executado em entreajuda, fosse agarrado ao cabo de uma enxada, de um ancinho ou a rabiça do arado tudo era feito na maior harmonia e camaradagem. Não esquecendo as sementeiras das ribeiras, onde havia sempre lugar a uma bem merecida, mas curta sesta após o almoço tomado quase sempre à sombra dos salgueiros ou outra árvore que oferecesse a melhor sombra, que nem sempre era aproveitada da mesma maneira por todos, enquanto uns dormiam outros divertiam-se a pregar partidas, a mais usual era a atar as pernas, ou a coser as calças nas pernas a algum que se deixasse adormecer, e quando fosse acordado para o reinicio aos trabalhos dava-se hora do riso pois era óbvio que não se conseguia levantar e caía... era chegada a hora de aparecer alguém arvorado em bom samaritano para cortar as linhas ou as cordas que cosiam ou atavam as calças. Havia sempre lugar ao trabalho e ao divertimento. Depois de um dia de trabalho duro, ainda havia disposição para ir para o largo da cruz da rua e fazer um baile até as tantas aahhh e como era saudável, onde novos e idosos se divertiam dançando ao som da concertina, da guitarra ou muitas vezes só ao som da harmónica (gaita de beiços) ou flauta, nome por que era mais conhecida nesta região. Chegada a época das colheitas do milho. era uma azáfama tinha de ser colhido e seco antes de começar a cair as primeiras chuvas. Os serões, nome porque eram conhecidas as escapeladas ou as debulhas, trabalho de desempenho comunitário onde as pessoas se entreajudavam com muita lealdade e pureza. Trabalho esse que era sempre desempenhado depois de um árduo dia de trabalho, uns seriam feitos antes e outros depois do jantar, onde não faltavam as cantigas, as mais variadas brincadeiras, se contavam muitas e criativas histórias, alegres anedotas, que nos faziam esquecer o cansaço e a dureza do quotidiano, onde se iniciavam ou terminavam alguns namoricos, entre a juventude que na altura havia muita na minha aldeia. Depois destes serões, às vezes já terminados muito para além da meia noite, ainda havia tempo para a rapaziada, mais atrevida ir roubar umas uvas para a ceia, e sabíamos sempre onde começar, as que já estavam mais maduras e o dono já dormia. um som inesquecível era o chiar dos carros de bois, que ao longe se podia ouvir formando uma melodia que mais parecia uma composição musical. Enfim... coisas do passado, que as gerações vindouras jamais poderão conhecer. Muitas vezes tento demonstrar aos meus filhos como era a nossa vida nesse tempo, e sinto uma felicidade incessante em estar a recordar como vivíamos nestas aldeias, como sofríamos mas éramos felizes ao mesmo tempo. A escola, que só podíamos usufruir do ensino primário, quarta classe, antes de entrar na escola às nove horas ainda fazíamos tarefas caseiras como, carregar um molho de mato ou lenha que os nossos pais faziam e nos punham as costas, com uma recomendação não te demores para não chegares atrasado à escola, o café ou a dejua como era conhecida, a primeira refeição do dia nem sempre era tomada, umas vezes por falta de tempo para não chegar atrasado as aulas outras pela inexistência de conteúdo. Os rebanhos que enchiam as ruas da aldeia, com o tilintar das campainhas ou dos chocalhos que saiam ao alvorecer ou chegavam ao cair do crepúsculo... era uma imagem única com os cabritos e os cordeiros a saltitar, alguns acabados de nascer ainda transportados ao colo do pastor. Neste momento são sonhos para quem viveu esta realidade porque tudo isso acabou, em grande parte devido à necessidade que as pessoas tiveram de emigrar, procurar noutros locais a esperança de uma vida melhor, em especial na grande Lisboa, onde ainda hoje existe uma grande comunidade Carvalhalense. As tardes de domingo que antecediam as festas da aldeia em honra de São João, o padroeiro da aldeia onde toda a comunidade aldeã se reunia numa casa do mordomo, para preparar manualmente os artefactos com que iriam ser decoradas as ruas da aldeia para o dia da festa, flores, candeeiros, fitas de papel, os arcos com ramos de castanheiro ou azereiro etc.. trabalho artesanal, uma arte que que era passada de geração em geração, mas infelizmente está a desvanecer. Sinal dos tempos modernos. Hoje é mais fácil adquirir esses ornamentos num armazém de quinquilharia chinesa, oh... que saudades, por onde andas Carvalhal do Sapo de antigamente. Seguramente também não era possível viver hoje desta maneira. Não passava de uma escravidão consentida e aceite pelas pessoas com alguma leveza, o meio pobre em que estavam inseridos, a rudeza da vida que tinham de enfrentar, o baptismo do obscurantismo com que éramos premiados durante a nossa infância, só alguns mais aventureiros e arrojados, se decidiam pela migração, procurando um salário mensal fixo com que pudesse alimentar a família condignamente. Coisa que nestas aldeias era um bem inexistente.
Então e os serões em casa do sapateiro, o sr. António Maria de Almeida onde os mais novos jogavam cartas, os mais idosos deixavam-se absorver em amena cavaqueira, com tricas e dicas do dia a dia da aldeia. Então e o cheirinho da broa quando estava a ser cozida no forno aquecido a lenha, o sabor daquela broa de cebola com carne de porco que jazia durante longo tempo na salgadeira, coberta de sal, única maneira de a conservar na altura, com um sabor sem precedentes, bem me lembro! A broa ainda vou conseguindo imitar, agora aquela carne com uma camada de toucinho com três dedos de altura já com cor de amarelado que se podia cortar às tirinhas e colocar em cima de uma fatia de broa mesmo já com oito dias de cozida e saborear assim mesmo, que petisco, uma iguaria sem igual, que só os nossos ascendentes sabiam preparar... isso é que já não há... oh que saudades!
video

sexta-feira, 15 de Maio de 2009

MANUEL FERNANDES


POR ONDE ANDAS MEU GRANDE AMIGO

Foi com alegria e algum espanto que li o teu comentário, no meu blog. Adorei saber que uma pessoa tão importante e amiga de infância como o meu primo Manuel Fernandes estava a seguir o meu blog, desde já o meu muito obrigado. Espero que depois de um interregno longo como este, sem contacto entre nós possamos agora voltar a reatar a nossa convivência, obviamente que só terá acontecido pelas agruras da vida, não porque algum de nós o deseja-se. Então e como estás, bem espero, tal como a restante família. Gostei de saber que já és avô, parabêns ! Isso é sinónimo de que já estamos a chegar à meia idade ...
pois tal como tu tambem já pude sentir essa alegre e feliz sensação de ser avô, há uns curtos seis meses de uma linda menina chamada Catarina. Voltando à nossa meninice alegra-me que não tenhas esquecido a tão badalada frase - ò cacito fuge Tantas vezes pronunciada por alguém que já não o poderá voltar a fazer, e sempre usada no meio do divertimento e convívio, por uma pessoa que sempre soube fazer da sua vivência com os outros uma arte de fazer amigos. Deixemos de lado as lamechices e falemos de coisas mais agradáveis. Como desta vez não teremos uma galinha para cortar o pescoço, teremos de nos voltar para outro lado, talvez um bom peixe grelhado no carvão ou um tradicional cozido a portuguesa à moda do Carvalhal. Nada me daria mais alegria poder fazê-lo na tua companhia e dos nossos e poder assim voltar a recordar os tempos da nossa infância em alegre cavaqueio, pois muito mais há para contar. Para quando, avisa! Fico esperando por esse tão ansiado momento.

...Ò cacito fuje!

sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Memórias (da filha...)

Do Carvalhal... há lembranças muito boas! Há um agradecimento eterno pelo privilégio (apenas recentemente reconhecido) que é poder fazer parte deste mundo...
Lembro com carinho aquelas férias de Verão... a alegria que é para uma criança andar à vontade o dia todo, aqueles miudos todos juntos na brincadeira a fazer barulho o dia todo e ninguém reclama, andar sem aquele permanente controlo dos pais, pois não havia muito para onde fugir e dado que naquele meio todos nos conheciam acabavamos por ter sempre alguém de olho em nós... mas era uma alegria sentir que eramos livres, que não havia horas para ir para casa, que a chave estava sempre do lado de fora da porta 24 horas por dia, era uma alegria aquela sensação de liberdade... Lembro-me de cair para dentro dos chafariz por andar a apanhar girinos (e levar nas orelhas da mummy por chegar toda molhada a casa...), lembro-me do desespero por cartões para escorregar naquelas colinas, lembro-me do medo de dar a volta da procissão à noite, das histórias da fonte fria (acho que nunca arranjei ninguém para lá ir comigo depois da meia-noite e ainda bem porque depois não sei se eu teria coragem...), lembro-me das tardes a apanhar amoras, lembro-me de tardes passadas a tomar conta das cabras da minha avó e controlar as horas de voltar pelo sino da igreja do Colmeal, lembro-me de os putos se juntarem para chatearem os adultos para arranjar alguém para nos levar para o rio, lembro-me dos banhos no rio, a piada de ver a água cheia de shampô depois do mergulho, lembro-me dos bailaricos, lembro-me das pessoas... Lembro-me também da altura em que aquilo não tinha piada nenhuma e era o pior castigo do mundo ter de ir para lá... não era nada "fixe" passar lá as férias (um bem haja a todos os pais por conseguirem aturar a adolescência dos filhos!).
Agora... olho para trás, sorrio e agradeço... foi e é um privilégio poder ver, poder estar, poder aproveitar, dar valor ao estilo de vida das pessoas (o que nos ajuda a valorizar o nosso e o esforço dos nossos pais que tiveram de abandonar a sua terra em busca de melhores condições), beber água da nascente, acordar e ver aquelas paisagens, sentir aquele cheiro puro (é engraçado como se nota a diferença).
Um obrigado aos meus pais por me terem possibilitado fazer parte daquele mundo, acho que todas as crianças deviam passar por estas experiências... contudo, apesar de achar o sossego mais reconfortante do mundo, de gostar de ir lá, de achar que é um sítio de muitos encantos, vou mas levo o meu carro... e fujo para Góis... (ó pai perdoa-me mas sabes que Góis é mais "eu", o Carvalhal é mais "tu").

E pronto... com um sorriso pelas lembranças de boas memórias acabo o meu post! Continua com o blog, estás de parabéns!

Um beijo grande da filha que vos adora (e que também tem de ter muita paciência... :) ),


Vai um mergulhinho?

Carvalhal do Sapo


O Carvalhal é apenas mais uma aldeia com essa denominação, situada na região natural da cordilheira central entre as serras do Açor e da Lousã, administrativamente colocada no distrito de Coimbra, concelho de Góis, situada nas extremas da Beira Litoral, encostada à Beira Baixa, embora seja terra de características bem mais interiores do que litorais.
Sendo por definição e características uma área geográfica fundamentalmente rural, ainda hoje, apresenta traços visíveis dessa ruralidade profunda que lhe conferem uma identidade e carácter distinto.
Esses traços consubstanciam-se num conjunto muito próprio de saberes-fazer, associados a tradições e costumes antigos, muitas vezes decorrentes de necessidades que permitiram a esta gente ao longo dos tempos vencer, ou pelo menos atenuar, as agruras do meio. A agricultura e o pastoreio eram no outrora a sua principal embora deficiente fonte de subsistência.
Refiro apenas que, historicamente, esta aldeia, dadas as suas condições naturais e modos de vida ao longo dos tempos sempre foi muito sensível ao fenómeno da emigração, marcados por períodos de surtos migratórios quer para o Brasil e África quer para a Europa. No entanto, a maior procura destas gentes foi para os grandes centros urbanos do nosso litoral, especialmente para a área da grande Lisboa, lugares onde se encontra maioritariamente radicada a diáspora dos Carvalhalenses, forçada a aí procurar melhores condições de vida.
Como terá aparecido o nome, qual a língua, qual o povo que terá criado o nome toponímico ou de familía? Para além de servir para outras designações como variedade de fruta, como a uva, a pêra, a cereja, a tangerina ou ainda de uma mata de carvalhos (seja esta a mais provável origem deste topónimo pela ainda significante existência desta árvore). E qual terá nascido primeiro, o topónimo ou o antropónimo? O topónimo de Carvalhal além de vulgar não nos elucida sobre o seu passado. Admite-se que esta região seja habitada desde o calcolítico médio por volta dos finais do segundo milénio anterior à nossa era, como atestam os conhecidos petróglifos "Pedra Riscada" e "Pedra Letreira".
A verdade é tão simples quanto esta, não é preciso ir até aos confins da Terra para descobrir paisagens maravilhosas e em estado (quase) puro. E também não é preciso enfrentar riscos impensáveis para poder gozar de uns belos dias de descanso e comunhão com a natureza, num desses paraísos esquecidos do mundo. Aqui mesmo nas aldeias da beira serra encontra esses paraísos. Um património incalculável de paisagens, flora e fauna com belas florestas e rios maravilhosos que nos oferecem aprazíveis praias fluviais com águas cristalinas que nos convidam a desfrutar deste bem que a natureza nos oferece, com sol e sombra quanto baste.
Para que não fique apenas pelo sonho, deixo-lhe aqui o convite, de carro ou a pé, não deixe de visitar este que é um dos últimos paraísos escondidos entre vales e montanhas recheadas de rara beleza com locais aprazíveis que jamais podemos esquecer, com gente hospitaleira, que mesmo não nos conhecendo abre as portas de suas casas e nos convidam a entrar. As fontes de água pura que brota das rochas graniticas são outro dos bens que a natureza nos oferece para que possamos mitigar a sede e satisfazer os desejos do nosso âmago, enfim... um sítio que nos encanta e oferece a maior paz e tranquilidade de espírito, com tudo o que por aqui há de bom!

NEVE NO CARVALHAL











domingo, 8 de Março de 2009

RECORDAR O «TI» MOREIRA



No lugar do Carvalhal
Freguesia do Colmeal
Chega ao fim um ser humano
O ti Moreira morreu
a tristeza aconteceu
No último dia do ano.

Senti um nó na garganta
Ao saber que essa alma santa
Tinha chegado ao seu fim
Senti no rosto a humildade
De uma lágrima de saudade
Que tinha dentro de mim.

Da mesa se levantava
Ao saber que eu chegava
Lá vinha para me atender
Bom amigo o ti Moreira
Com a sua boa maneira
Que nunca irei esquecer.

Vinha à pressa da fazenda
À loja dar a encomenda
Para eu não perder tempo
Os cheques me confiava
Era eu quem os passava
Para fazer o pagamento.

Quantas vezes eu notava
Que certa mercadoria comprava
Não faltava de momento
São coisas que nunca esquecem
Por tudo isto merecem
O meu agradecimento.

Guardarei no coração
Com imensa gratidão
Toda a sua ajuda que deu
A este seu fornecedor
Que agora pede ao senhor
Que o ajude também no Céu.

A sua mercearia
Foi sempre uma mais valia
Para aquela boa gente
Hoje com a porta fechada
Com saudade será recordada
Por todos eternamente.

Com a sua maneira de ser
Lá vinha sempre atender
Assim que alguém o chamava
Para vir à mercearia
Fosse de noite ou de dia
Sempre bom modo virava.

Nestes aqui expressei
O que de si eu guardarei
Durante uma vida inteira
Na terra deixou a dor
Que descanse no senhor
A sua alma ti Moreira:

Como recordação e saudade do amigo,
Augusto

(Publicado no jornal "A Comarca de Arganil")


É bom saber que há pessoas que souberam reconhecer o teu bom carácter, a amizade e o carinho com que sempre foram recebidos no teu estabelecimento, por ti meu Pai, eu lhes agradeço.
O nosso muito obrigado ao Sr Augusto que também sempre fez o favor de ser nosso amigo.

sexta-feira, 6 de Março de 2009

LEMBRANÇAS DA MINHA INFANCIA

A história do raposo
Quando um dia caminhava pela vereda que subia do Lambusqueiro pelo barroco da costa, não sei qual o motivo que me terá levado a estas paragens, mas o que me recordo muito bem foi do que vi , um raposo ainda bebé que uivava a entrada da toca, provavelmente reclamando a presença da mãe raposa, para se poder saciar com o leite materno. E obviamente que logo me passou pela cabeça apanhar aquele raposinho... não tardou nada para que estivesse a fazer o convite ao meu grande amigo e companheiro de aventura o "Manuel da Lucinda" para ajudar na tarefa, pois isto era tarefa para a dupla, porque se um dizia esfola o outro dizia mata. A decisão foi rápida, enxada ao ombro e ai vão eles, toca a derrubar a parede da calçada do "João Maria" o que nos custou alguns dissabores, mas derrubada a parede da calçada e mais alguns metros em frente começou a toca da raposa a dar a volta em direcção paralela a porta de entrada, mas como a missão era capturar o bichinho vai de cavar, o ânimo não faltava e ao fim de algumas investidas diárias, que duraram cerca de três dias lá conseguimos chegar ao ninho e apanhar o ansiado raposinho. Foi com grande alegria que chegamos à aldeia a apresentar o nosso troféu à população.
Agora surgia o problema de como albergar o animal, tarefa que se tornava difícil, pois não era fácil arranjar casa segura para tão astuto morador. Claro que ao fim de uns minutos a ideia surgiu, vai ficar dentro de uma caixa de madeira que eu tinha guardada numa casa onde dormiam alguns operários que trabalhavam para o meu pai na construção. E assim foi, todos os dias bem cedo eu deslocava-me a esse local para dar de comer ao raposinho. Qual não foi a minha desilusão quando um dia ao chegar junto da caixa que servia de casa ao animal, verifiquei que este estava morto, logo me apressei a dar a triste noticia aos restantes residentes (os operários do meu pai) que logo se apressaram a dizer que se calhar eu tinha dado comida a mais e o bichinho morreu de congestão.
Mas a conclusão vim mais tarde a saber, o meu bichinho de estimação fazia muito barulho de noite não deixando dormir os restantes residentes e o sr Manuel da Cabreira um bom artista na arte de pedreiro resolveu apertar o pescoço do meu lindo raposinho. Terminando assim a saga do raposo, mas não na memória de meu pai que não se cansava de evocar a saga do raposo em especial quando a dupla Acácio e Manuel da Lucinda estavam presentes.

domingo, 1 de Março de 2009

MANUEL MOREIRA 'O MOREIRA DO CARVALHAL'



Manuel Moreira, nasceu no Carvalhal do Sapo a 26 de Agosto de 1921 e aqui faleceu a 31 de Dezembro de 2008.
É costume comentar que a vida são dois dias, a data do nascimento e a data da morte e vê-mo-lo sempre que vamos a um cemitério e todas as lápides traduzem esta realidade no seu dizer singelo, nasceu a tantos de tal e faleceu a tantos de tal. A diferença entre estas datas é um interregno da vida, uma imagem que perdurará ou se extinguirá, consoante as acções que podemos fazer em vida e que marcam a nossa passagem por este mundo.
Manuel Moreira, neste seu interregno, foi uma figura que marcou a sua passagem por este mundo na nossa terra, e que ficará para sempre na memória das nossas gentes, foi sempre uma figura marcante, de grande carisma para a era em que viveu, foi um grande exemplo para a sua e futuras gerações. Um símbolo dum mundo que deixou marca e que infelizmente está a desaparecer!
Era um homem que fazia da convivência uma devotada arte de partilhar a amizade. O seu grande amor pela família e a amizade pelos amigos era o que de mais importante tinha na sua vida.
Teve uma vida difícil, uma juventude vivida em terra inóspita de fracos recursos que tornava a vivência muito dura. Para aumentar as já normais dificuldades, surge uma situação inesperada e incompreensível para uma criança de nove anos, ficar órfão de pai, com mais dois irmãos de seis e três anos, a mãe fica com maiores responsabilidades e obrigações para cumprir, deixadas pelo falecimento inesperado do pai, a pobreza que exalava na família tornava impossível o cumprimento destas obrigações. É aí que entra a responsabilidade do filho mais velho, colaborar na alimentação da família e no cumprimento dos deveres da mesma. Foi com esse sentimento de amor fraternal, e o sentido do cumprimento dos deveres de família, que toma uma decisão, mudar o rumo da sua vida, arranjar maneira de ganhar a vida, uma vida que trouxesse algum dinheiro, para alimentar a família e pagar as dívidas que ainda se mantinham. Foi na esperança de uma vida melhor que tomou o rumo a Lisboa, onde foi procurar um meio de subsistência e o melhor que encontrou foi como moço de armazém, onde se empregou, recebendo um parco salário, mas com boa gestão e muito esforço conseguiu o seu objectivo, entretanto surge uma outra situação, a de formar uma nova família, consumar o casamento, pois isso seria a ordem normal da vida... e assim aconteceu. Casamento consumado a vida vai ter de continuar, a mulher fica na aldeia a cultivar as suas terras e ele vai ter de continuar a sua sorte na capital. Situação que se foi mantendo por alguns anos mas as saudades da esposa e do primeiro filho, já nascido, começam a apertar e a angústia da distância a fazer-se sentir... e assim, há que enfrentar a situação! Foi na tentativa de conseguir dar novo rumo à vida dura, aos salários miseráveis, à separação da família pela distância que surge a oportunidade que há algum tempo ecoava o regresso à sua terra. Era uma oportunidade única, dar seguimento a um pequeno estabelecimento de comércio misto aí existente. Ultrapassados alguns percalços pelo meio, os escassos meios para enfrentar as dificuldades que se avizinhavam, foi com a grande força de espírito de que sempre foi portador que tudo se ultrapassou e o seu objectivo atingido. Mesmo após o seu regresso à terra natal, a vida permaneceu dura mas na companhia da família e podendo contar com o seu apoio, foi mais fácil lidar com a crueza duma luta que afinal nada mais foi que o apanágio de uma vida.
Com o passar dos anos, a família vai aumentando, os filhos vão aparecendo até um total de oito, sem contar com o desaparecimento de uma ente querida que poucos dias de vida teve, mas que continua a perdurar na nossa memória. Tem que haver força e alento para enfrentar as agruras da vida! Passa os seus dias entre gerindo o estabelecimento e alguns negócios paralelos como a construção e o negócio de madeiras, que mantém por muitos anos.
E ultimamente, embora já tivesse abandonada há algum tempo os outros negócios, manteve sempre aberto o seu estabelecimento. Actividade esta que, ultimamente, já com alguma dificuldade de mobilidade física ia prestando apenas os serviços essenciais, que eram uma maneira de minorar o sofrimento de pessoas que, como ele, continuavam a dar vida à aldeia e que teimam em não a abandonar pois ela é sem dúvida o símbolo da sua existência.

Foi dentro deste estabelecimento que passou a maior parte da sua vida, onde muito trabalhou, se divertiu, teve momentos de grande alegria na companhia de clientes e amigos e que por ironia do destino teve os seus últimos momentos de vida, após ter terminado a sua normal distribuição de pão, deu o seu último suspiro...

É com muito mágoa que a custo escrevo estas linhas, mas sinto uma grande felicidade por poder desta forma, prestar homenagem a uma homem que sem duvida fez história nesta terra. A sua casa estava sempre aberta para receber a família e amigos que muitas vezes se deslocavam de longe para ir visitar o amigo Moreira do Carvalhal. Uma outra faceta da vida deste homem, foi um condão que, infelizmente, nos dias de hoje, nem todos conseguem, o dom de fazer amigos! A sua casa era paragem obrigatória e as portas estavam sempre abertas para receber a família, amigos ou simples visitas, para todos havia sempre, qualquer coisa para partilhar, beber um copo, comer uma sardinha ou um bocado de queijo, acompanhada de uma fatia de broa... bens de outrora, são coisas que as gerações vindouras não vão conhecer.
Partiu... embora já pareça uma eternidade ainda há pouco tempo! Foi um homem do povo, um homem simples mas de carácter, que fez muita falta a esta aldeia.
Manuel Moreira, vai sempre continuar presente na memória desta aldeia, terra que sempre amou e dedicou grande parte da sua vida. Continuarás sempre a fazer parte de nós! jamais serás esquecido.
Até amanhã meu pai!

sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Ribeira do Carvalhal







Moinho em ruínas na ribeira do Carvalhal




locais paradisíacos de aparência selvagem, que nos convidam a parar e meditar, como é possível haver tanta beleza escondida entre penhascos,salgueiros, amieiros e luxuriante vegetação, envolvendo estas pequenas quedas de água cristalina, que outrora era aproveitada para fazer mover lagares de azeite e moinhos de farinha.

segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

A minha aldeia ficou mais pobre...


A uma pessoa que lutou a vida inteira, que ajudou muita gente e que tinha sempre um sorriso guardado para receber a família e amigos, uma pessoa que deixou uma grande marca, deixou memórias e sem dúvida uma grande saudade!
Partiste sem sequer avisar e deixaste um grande vazio, todos sabemos que a vida é mesmo assim e nem por isso custa menos...
Serás sempre lembrado com muito carinho!
A todas as pessoas que estiveram presentes a prestarem uma última homenagem àquele que para mim é o marco daquele cantinho perdido na serra que guarda as grandes memórias da minha infância, agradeço do fundo do coração.
Não me é fácil aceitar a tua inesperada partida e assim como eu muita gente a chorou mas muitos mais vão sentir a tua falta.
Muito fizeste pela nossa aldeia e pela gente dela e só por toda essa bondade serás, sem dúvida eternamente reconhecido! Infelizmente a vida é mesmo assim e quero acreditar que todos aqueles com quem sempre conviveste irão sentir-se eternamente agradecidos por contigo terem convivido e partilhado experiências. Gostaria de algum modo, de ver essa apreciação em maior espírito de comunidade, em manter vivas as tradições e convívios da nossa aldeia. Que esses convívios sejam realizados de amigos para amigos, sem interesses além de proteger e preservar o bem comum e tão especial para mim, que a todos nós pertence, a nossa aldeia.
A ti meu pai, despeço-me assim, com um abraço do tamanho do mundo e um beijo de eterna saudade, descansa em paz!

sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Um olhar sobre nós...


Vou à minha aldeia sempre que me é possível, e cada vez sinto mais saudades da minha terra, onde nasci e vivi toda a minha meninice e parte da minha adolescência. Daí conhecer bem os costumes e tradições desta gente serrana. esta aldeia já não parece aquela em que nasci e que amei toda a minha vida.As poucas pessoas que hoje a habitam passam olhando o chão, o seu silêncio mais parece o eclodir de um furacão na quietude da paisagem. Como é possível que tão pouca gente, não sinta a necessidade do calor do próximo como antigamente, que era sempre transmitido através de um sorriso e doces palavras de saudação, como um "Deus te ajude" ou "vai com Deus" ou um simples "bom dia". No antigamente, a humildade era um bem obrigatório e que as pessoas sabiam como cumprir, e respeitar.Como é possível que as pessoas se tenham esquecido que são essas pequenas coisas que dão valor à vida? Que fazem a luta e o esforço valer a pena?!
Que nostalgia... carvalhal de outrora, em que todos eram parte da mesma família, em que se falava, ria, brincava, comia e bebia, tudo em pura harmonia e sã camaradagem muito raramente, alguem se desentendia . O passado é uma coisa que queremos esquecer, mas neste caso quero contradizer-me e por favor se é que enterraram o passado da minha terra do antigamento tragam-me depressa o coveiro porque eu quero desenterrá-lo, talvez assim possamos reaprender a viver em paz ,amor e harmonia. Vamos a isso! Vamos reviver a vida do passado do Carvalhal em que toda a gente vivia muito humildemente mas em paz e alegria.