Mostrar mensagens com a etiqueta CONTOS DE FAJÃO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta CONTOS DE FAJÃO. Mostrar todas as mensagens

sábado, 18 de setembro de 2010

CONTOS DE FAJÃO

A ÉGUA QUE PARIU UM VITELO
Uma vez um homem de Fajão e outro das Relvas foram à feira. Um comprou uma vaca e outro comprou uma égua. E por sinal ambos os animais andavam pranhos, quase a parir. Na volta da feira chegaram às Relvas ao anoitecer, e como para Fajão ainda era longe, o homem das Relvas convidou o companheiro a ficar ali para o outro dia. Ele aceitou, e meteram ambos os animais na mesma loja.
Ao outro dia apareceu na loja um vitelito. Logo o dono da égua se apressou a dizer: Olha, a minha égua já tem aqui um vitelo!
-Não é nada! É da minha vaca!
Discutiram, discutiram, até que resolveram ir a Fajão consultar o Juiz. Ele é que diria de quem era o vitelo.
Lá abalaram com os animais. Passaram na ponte de Cartamilo, na Barroca das Carvalhas, subiram as voltinhas, e quando iam já perto do Reboludo, nem de propósito: vinha o Juiz de Fajão a chegar à estrada, vinha de uma propriedade  que tinha lá em baixo à borda do rio e trazia ao ombro uma sachola e uma abóbora debaixo do braço. Logo ali os dois apresentaram o assunto, cada um, é claro, puxando a brasa à sua sardinha. O Juiz ouviu, mas logo se fez muito exaltado e disse muito nervoso: Deixem-me, que eu hoje venho fora de mim, venho mesmo estaporado! Não posso hoje dar sentença.
-Então que é isso, Sr. Dr. Juiz, que foi que lhe aconteceu?
-Então não querem saber? Eu tinha lá em baixo à borda do rio um bocado de trigo que era um louvar a Deus! Estava mesmo bonito. Mas esta noite as trutas saltaram-me nele e comeram-no todo.
-Isso não pode ser, disse  logo o dono da égua. Tenho pescado muita truta, mas da idade em que estou nunca ouvi dizer que as trutas saltassem para o lameiro para comer erva. E vai logo o Juiz de Fajão:  Pois eu, da idade em que estou, também nunca ouvi dizer que uma égua pudesse parir um vitelo!
Estava ditada a sentença.
( Do livro Os Contos de Fajão,  por  P.e A. Nunes Pereira)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

CONTOS DE FAJÃO

O QUEIJO NO RIO
Certo dia, ainda de madrugada, iam os de Fajão para a feira do Mont' Alto. Quando iam a passar
na ponte de Cartamilo,que então era de madeira, viram a Lua reflectida na água, (por acaso era lua-cheia), e vai um aqui assim; Olhem que belo queijo lá está em baixo! E se nós o fossemos buscar ?
-Mas é que vamos mesmo, disse o Pascoal.
-Mas como?
-É fácil. Eu penduro-me aqui nas grades da ponte, tu penduras-te nos meus pés, e assim por diante, até que o último chega lá abaixo e apanha o queijo. Boa ideia! - aprovaram todos.
Quando já faltava só um para chegar ao queijo, diz lá de cima o Pascoal: ««Eh! rapazes, segurem-se lá, que quero cuspir nas mãos !»»
Largou as mãos para cuspir, e caíram todos ao rio. E o pior é que, como estavam todos aprumo, ficaram com as pernas todas embaralhadas; queriam sair, mas não sabiam quais eram as pernas de cada um, de modo que ficaram pr'ali...
Por acaso adregou de passar na ponte um almocreve. O almocreve quando viu aquele monte de homens no rio, perguntou o que era aquilo. Eles contaram-lhe o sucedido, e que não podiam sair dali porque não sabiam quais eram as pernas de cada um.
Diz o almocreve: Quanto dão vocês a quem vos diga quais são as vossas pernas?
-Trinta mil réis e uma carga de presuntos (era o dinheiro de Fajão).Então ele não esperou por mais nada. Tirou o arrocho da carga da mula e começou a bater nas pernas de uns e  outros. Ui! - gritava um. - « Tire, que essa é sua», respondia o almocreve. Batia noutra, -Ui ! - « Tire, que essa é sua ».
E assim,  um a um , tirou-os todos.


Do livro, Os contos de Fajão. por: P.e A. Nunes Pereira

sábado, 1 de maio de 2010

OS CONTOS DE FAJÃO

 A VISITA DO BISPO

A certa altura Fajão foi provido com um novo cura, e logo nesse ano o Senhor Bispo anunciou a sua visita pastoral.
Foi numa tarde amena que o dito cura se encontrou com  o Juiz em passeio, e logo o cura disse para o juiz:
Olhe, qualquer dia vem aí o Senhor Bispo, em visita  pastora, e o que é certo é que eu não estou ainda lá muito bem habilitado para orientar as coisas.
E logo o Juiz disse: Ó senhor prior, não se preocupe.Se quiser, dê-me as suas ordens, que eu trato disso tudo e resolvo-lhe os problemas todos.
Está bem eu agradeço; trate-me lá disso tudo, para a freguesia não ficar mal.
Assim foi. O juiz preparou tudo, e no dia da visita lá foram todos para a serra esperar o Senhor Bispo, e está claro que à frente ia o Juiz, para ser o primeiro a cumprimentá-lo.
O Juiz aproximou-se, tirou o barrete e cumprimentou: « Então, Senhor Bispo, passou bem ? Fez boa viagem? E como está a senhora Bispa, e os bispinhos todos, estão bons?»
O Senhor Bispo não se desmanchou, e respondeu: - Bem; está tudo bem, muito obrigado. Foi recebendo os cumprimentos dos principais da vila, mas a certa altura a mula do Senhor Bispo pôs uma pata em cima do sapato de um deles. O homenzinho lá foi aguentando, mas quando já não podia mais perguntou:
- «O Senhor Bispo ainda se demora aqui muito tempo? É que a mula de V. Ex.ª  tem um pé em cima da minha pata!»
Depois foram todos em procissão por ali abaixo. Perto da igreja, o Senhor Bispo paramentou-se e lá foram seguindo. Ao chegar o cortejo à igreja, o Senhor Bispo que era muito alto e ainda com a mitra em cima, estava a ver que não podia entrar. Então o Senhor Juiz chegou-se ao pé do «Senhor Bispo, faz favor de abaixar a cornadura, se não bate lá em cima!» Bem .Pois o Senhor Bispo baixou a cabeça e entrou. Na igreja as cerimónias decorreram como era costume. Depois foi a parte exterior, as cerimónias civis. Dirigiram-se ao aos Paços do Concelho. No cimo das escadas o Senhor Bispo tropeçou e rolou pelas escadas abaixo. Ora o Juiz tinha dito ao povo para fazerem o que o Senhor Bispo fizesse; então, julgando que aquilo também fazia parte das cerimonias, puseram-se todos a rolar pelas escadas abaixo.
Depois daquele percalço entraram todos nos Paços do Concelho, para uma recepção e almoço. Tudo normal, como  é  uso nestas visitas. Mas a certa  altura o Juiz, que não tinha esquecido nada para preparar uma recepção condigna, e por isso tinha preparado uma ca(ga) deirazita; como o Senhor Bispo não tinha pedido nada, lembrou-se de que ele devia precisar. Sim, porque todos nós sabemos o que são necessidades. Então chegou-se ao pé do Senhor Bispo e disse-lhe ao ouvido: Olhe lá, o Senhor Bispo, talvez precise de cag...
 - Não será pior, não! - respondeu ele. (Contam outros pormenores que para o caso não adiantam ).
O que é certo é que o Senhor Bispo veio muito bem impressionado com a visita pastoral a Fajão
Do livro os contos de Fajão. - Por P.e A. Nunes Pereira